sexta-feira, 30 de setembro de 2011

DO DIREITO DE DIZER-SE


“O que nos falta é a capacidade de traduzir em proposta aquilo que ilumina a nossa inteligência e mobiliza nossos corações: a construção de um novo mundo” (Herbert de Souza, Betinho)

Todos os cidadãos e cidadãs têm o direito de dizer algo sobre sua cidade. As Câmaras de Vereadores, também chamadas “Casas do Povo”, instaladas em todos os municípios de nosso país, com raras exceções garantem espaços para que a comunidade possa expressar, livremente, os problemas que afligem a sua vida na cidade. Os obstáculos à cidadania e à manifestação popular que as casas legislativas impõem a seu povo não constituem importante contradição da própria democracia?

A cidadania precisa de um lugar de fala e de escuta pública. Ao falar do seu lugar, do seu bairro, da sua realidade, dos seus problemas e de suas conquistas, o povo diz-se a si mesmo. Deste modo, elabora um jeito de viver a cidade e conviver socialmente. Na medida em que os agentes políticos oferecem oportunidades para a população dizer-se, maiores serão as possibilidades de integração social e de resolução dos problemas que envolvem a coletividade.

Vivemos sob o regime da democracia representativa, mas felizmente uma parcela significativa da população vê também as Câmaras de Vereadores como um espaço que, por excelência, deveria acolher as suas demandas, sugestões e reclamações. As Câmaras de Vereadores, por acolherem a pluralidade das diferentes ideologias partidárias, poderiam organizar-se para oportunizar espaços de discussão sobre os destinos de uma cidade. Sem uma interlocução permanente com a população, o legislativo não cumpre com a sua finalidade de representar as demandas e os interesses desta mesma população.

Depois de eleitos, todos os vereadores passam a ser vereadores de toda a população de uma cidade. Infelizmente, muitos vereadores adotam posicionamentos direcionados somente àqueles grupos ou pessoas que tiveram interesse na sua eleição, deixando de cumprir sua missão de homens públicos, eleitos para legislar, acolher e encaminhar as demandas da comunidade, fiscalizar e acompanhar todas as obras públicas executadas pelo poder executivo. Por sua condição de homens públicos, suas atitudes, falas e intervenções públicas sempre são passíveis de questionamento, explicações e responsabilização, por mais que gozem de “imunidade parlamentar”.

A socióloga Maria Alice Canzi Ames, ao comentar sobre a impossibilidade de manifestação pública na Câmara de Vereadores de Santa Rosa, RS, afirma que “as ideias e as opiniões, mesmo sendo divergentes devem circular de forma livre. As pessoas têm direito dentro de um estado democrático de manifestar livremente a sua palavra”. Manifesta ainda que a atitude de barrar manifestações numa Câmara de Vereadores fere os princípios da democracia, que significa a autoridade e a força do povo.

A cidadania preconiza que tenhamos asseguradas possibilidades de todos viverem e dizerem a cidade da qual são parte. O que nos une, na democracia, são os interesses coletivos. Na sua cidade há espaços para o povo dizer-se? Os espaços sociais de sua cidade permitem a construção de uma nova sociedade?

Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.

(pies.neialberto@gmail.com)

sábado, 16 de abril de 2011

De "culpas" progressistas

De “culpas” progressistas

“Se não há uma boa base educativa, uma boa metodologia, que some aos conhecimentos que já existem, não haverá mudança, não haverá educação integral, será impossível ter em conta o ser humano em sua totalidade” (César Muñoz Jimenez, em entrevista a ZH 03/04/11)

Estamos na aurora de um tempo em que, no afã de indicar culpados para os problemas da sociedade, alguns são tentados a usar argumentos simplificados e pouco consistentes, maculando as verdadeiras razões para explicar a realidade como ela é. A velocidade dos avanços tecnológicos e científicos e nem a volta aos “velhos métodos” servem de bases de resolução dos nossos problemas humanos atuais. Os mais sóbrios e experientes já aprenderam que para problemas complexos, como da educação brasileira, não existem soluções simples e de fácil aplicação, ou de aplicação generalizada.

O objeto da educação são as pessoas, por isso a complexidade de tratar, ao mesmo tempo, habilidades como a leitura e compreensão dos contextos e a construção de conceitos com a necessidade da integração dos sujeitos a partir da família, da escola e da comunidade. Este processo é sempre lento, gradual, com princípios que conduzam à realização humana, o que ultrapassa a dimensão mecânica do processo de ensino-aprendizagem.

Os avanços das idéias progressistas no Brasil estão associados aos processos de conquista da liberdade, da organização e da democracia, a partir da Constituição Federal de 1988. Neste contexto, estão imbricados as inúmeras conquistas sociais que se materializaram em políticas públicas de saúde, educação, trabalho, moradia, assistência social, proteção às crianças e adolescentes, de inclusão, etc. Desta “caldeira política cultural” emergiram as teorias e compreensões progressistas da educação que foram afirmando a necessidade de construirmos os próprios sujeitos do conhecimento. Igualmente verdadeiro, podendo-se comprovar, suas proposições estão imprimindo algumas mudanças na gestão da educação, o que não quer dizer que resolveram todos os seus problemas, o que também não era a sua intenção.

As “maiores culpas” que podemos atribuir aos progressistas é que estes conquistaram, junto com o povo brasileiro, a garantia do acesso às escolas públicas. Finalmente, a escola passa a ser um lugar também considerado pelo povo, pela maioria pobre e desvalida, pelos filhos dos trabalhadores. Outra questão, igualmente nobre de “culpa”, é a contundente teimosia de associar “educação pública com qualidade”: pedagógica, de gestão e de conhecimento. Mas o Estado fez os investimentos públicos necessários para dar conta das novas demandas criadas, seja na qualificação dos espaços físicos, seja em investimentos na gestão escolar e na qualificação profissional dos docentes? Tratou a educação com prioridade?

Nossa escola pública, que se inspira sim em ideais progressistas, é uma escola que seguiu um modelo de educação centrada na lógica da abstração, da memória, do intelecto, sem considerar, de forma consistente, a realidade concreta em que vivem os sujeitos do conhecimento. Sem perceber a gravidade, deixou de trabalhar as dimensões cognitivas de caráter prático como as artes, as técnicas agrícolas, o trabalho com madeira, as atividades domésticas e de culinária, as hortas escolares. Foi tendo dificuldades de incorporar os elementos das novas gerações como a fantasia, a criatividade e a imaginação. Estas sim, razões para uma revisão de propósitos.

O maior risco, neste contexto, é a educação virar mais um produto de consumo, não um serviço e uma política de inclusão, com cidadania. Os progressistas desejam uma educação contextualizada, acreditando que a vida pode ser melhor a partir de oportunidades, do conhecimento e da cidadania ativa. A formação integral, sua bandeira, compreende o ser humano em sua totalidade, investiga as reais necessidades dos sujeitos para então intervir pedagogicamente, desencadeando os processos de aprendizagem.

Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos. (
pies.neialberto@gmail.com)

Artigo Massacre de Realengo, o Estatuto, Mudanças e os Saudosistas

Massacre de Realengo, o Estatuto, Mudanças e os Saudosistas

(Antonio de Andrade *)

O Brasil ficou chocado no dia 7 de abril de 2011 com as notícias do massacre de 12 jovens, com tiros na cabeça e ferimentos de outros 17 por um jovem de 23 anos, numa escola de Realengo, RJ. Quando se escuta notícias como essa e de outros jovens ou adolescentes que por motivos banais matam pessoas nas escolas ou ruas e várias outras notícias de crimes praticados por jovens e adolescentes, fica-se, no início, espantado com tanta barbárie. Depois da perplexidade inicial, chega uma sensação de que alguma coisa de urgente precisa ser feita pela sociedade para mudar essa triste realidade, objetivando a existência, realmente, de uma sociedade "civilizada", onde todos tenham a disciplina, a consciência e a responsabilidade de obedecer as leis que foram criadas para que se possa viver com outros seres humanos, criando-se, desse modo, aquelas condições ideais de convivência harmônica e saudável.

Alguns setores da sociedade gostariam que certas leis fossem mais rígidas nas punições, que fosse diminuída a maioridade penal para se poder punir exemplarmente os adolescentes criminosos, evitando que tenham a impunidade como estímulo para cometerem novos atos criminosos ou que fiquem pouco tempo nas instituições de recuperação, voltando às ruas com mais raiva de tudo e todos e mais experientes em atos criminosos, tendo aprendido com outros mais velhos nessas instituições. Muitos almejam mudanças, em especial na Lei Federal 8.069 de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente, lei que protege e ampara esses seres em desenvolvimento (mas que apesar da pouca idade já sabem matar selvagemente!), lei que substituiu o autoritarismo do antigo Código de Menores e a Política Nacional do Bem-Estar do Menor que vigorou no Brasil até 1990. Esses setores são os "saudosistas" em poderem punir as crianças e os jovens por crimes ou outros atos infracionais, mas sentem-se tolhidos pela própria sociedade que estabeleceu por essa Lei, que a criança e o adolescente não podem ser assim reprimidos e punidos. Eles consideram que os crimes praticados por adolescentes estão mostrando que está havendo um "desastre educacional" com o estilo brando e permissivo nas atitudes para com as novas gerações. Consideram que seria benéfico para todos, se voltasse aquele estilo de educação com disciplina que existiu no passado.

Dentre os "saudosistas", há pais e educadores que ficam com saudade de poderem agir com mais rigor com os jovens, como era feito antes da vigência do Estatuto. Essa saudade ocorre quando não conseguem mais fazer as crianças e os jovens terem um comportamento adequado e disciplinado. Ou quando constatam que seus comportamentos revelam desinteresse pela aprendizagem, apatia ou agressividade, envolvendo-se com drogas para preencherem o vazio que sentem e a insatisfação causada pelos valores distorcidos de somente "terem" cada vez mais, em detrimento de "serem" cada vez melhores pessoas. Ou ainda, quando apresentam falta de respeito e consideração aos mais velhos, falta de responsabilidade em suas atividades, falta de solidariedade e cooperação, falta de controle das reações emocionais (raiva, em especial), impulsividade, etc.

Esses saudosistas querem fazer alguma coisa para mudar, mas ficam tolhidos em suas ações educativas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente que em seu artigo 5, por exemplo, expressa que "Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade ou opressão...", e no artigo 15 diz que "A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento...", complementado pelo artigo 17 que afirma que "O direito ao respeito, consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais". E o "golpe final" contra a vontade dos saudosistas virem a ser mais rigorosos com os mais jovens, está no artigo 18 desse Estatuto: "É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor".

Os saudosistas sentem suas "mãos amarradas" por esse Estatuto para poderem educar com mais rigor os jovens, mas continuam a almejar aquela época passada, onde as crianças e os adolescentes tinham mais consciência e responsabilidade de cumprirem bem os seus deveres, dentre outros, o de respeitar os mais velhos, tendo respeito pelos pais e educadores. Esses "deveres" parecem estar esquecidos pela educação permissiva, chamada de "moderna" e foram, também, esquecidos pelos legisladores do Estatuto que estabeleceram muitos "direitos", mas esqueceram de nele colocar, bem especificados, os "deveres" para que as crianças e os adolescentes também tivessem os seus deveres como pessoas em desenvolvimento. Deveres mínimos como cidadãos, como respeitar os adultos, os pais, a família, os professores, a Escola, a propriedade, e em especial, a VIDA dos outros. Certamente, poderia haver mudanças significativas se o Estatuto fosse modificado e nele fossem incluídos artigos estabelecendo os "deveres" das crianças e dos jovens e condições para os pais e educadores direcionarem os jovens para o cumprimento, com responsabilidade, desses deveres. Assim, os adultos ficariam felizes por terem esse Estatuto do lado deles para poderem conscientizar e educar as crianças e os adolescentes, mostrando a eles que um cidadão não tem somente "direitos" mas, muito especialmente, "deveres" para consigo mesmo e para com a coletividade, levando-os a serem pessoas mais responsáveis e conscientes, e tenham outros tipos de comportamentos mais equilibrados.

Com a vigência desse Estatuto, do jeito que está, as crianças e os jovens somente serão lembrados de que há "deveres" quando eles cometerem algum "ato infracional" e acusados de violação dos direitos à vida, ao patrimônio, à integridade física forem atendidos pela Justiça da Infância e da Juventude que ao analisar cada caso, tomará as medidas necessárias, apesar de muitas vidas já terem sido tiradas... Assim, o adolescente ficará sabendo que se cometer algum ato infracional, enfrentará a autoridade policial, o Ministério Público e a autoridade judiciária. Tomará ciência, também, que será julgado por uma autoridade que de modo isento considerará sua justificativa e examinará o seu comportamento dentro das normas de convivência social e tomará as medidas necessárias (Estatuto artigo 112), "seja de advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, inserção em regime de semiliberdade, internação em estabelecimento educacional". Ou ainda (conforme artigo 101 do Estatuto), "encaminhamento aos pais ou responsáveis, orientação, apoio e acompanhamento temporários, matrícula e freqüência obrigatória em estabelecimento oficial de ensino fundamental, inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à família, à criança e ao adolescente, requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos".

Todas essas ações, dentre as que o Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece, são atitudes pedagógicas para que o adolescente se conscientize da necessidade de agir com responsabilidade, sendo capaz de exercer plenamente a sua cidadania e possa vir a ter comportamentos disciplinados e saudáveis que lhe permitam voltar a viver no convívio com os outros seres humanos.

Mudanças, no Estatuto, são necessárias. Mas, além disso, outras mudanças estruturais na sociedade são urgentes de serem feitas, dentre elas, por exemplo, preparar melhor os jovens para um casamento responsável, sabendo fazer um planejamento familiar (e não tendo filhos "em penca", sem condições de criá-los), sabendo educar melhor seus filhos, sendo realmente responsáveis como pais. A Psicologia já comprovou que é no ambiente familiar que a criança evoluiu e aprende os primeiros ensinamentos, internalizando aqueles aprendizados sobre regras básicas do agir e conviver com os outros, os limites, os valores, as atitudes culturais saudáveis, as atitudes educacionais equilibradas, as posturas éticas e morais e outras informações necessárias para vir a ser um cidadão consciente e uma pessoa disciplinada na sua dimensão individual, social, e quando adulta, na vida profissional e de casal. Se a família é tão importante para a educação das novas gerações, por que não são criados mecanismos legais para responsabilizar mais os pais (além do que está no Novo Código Civil Art. 1.566 - Deveres dos pais item IV - "sustento, guarda e educação dos filhos" e alguns artigos também no Estatuto da Criança e do Adolescente), criando condições de apoio da sociedade, para que as famílias venham a ter melhores informações e condições de formar filhos com qualidades humanas?

Além da família, é preciso investir em instituições que eduquem ou reeduquem, com qualidade, os jovens para serem pessoas equilibradas, com postura cidadã responsável, que possibilitem uma profissionalização em especial aos jovens sem recursos para se desenvolverem, orientações sobre sexo responsável e planejamento familiar evitando gravidez em adolescentes que mal saíram das fraldas, etc. Ações educativas para uma cidadania equilibrada e responsável, é um objetivo que pode ajudar a mudar a triste realidade de jovens sem preparo para a vida, dando-lhes melhores condições para conviverem em uma sociedade que almeja ser formada por pessoas com características civilizadas. Governos, legisladores, judiciário e outras instituições precisam urgentemente fazer um esforço conjunto para mudar o rumo da realidade que aí está e deixa todo mundo apavorado e com a sensação de que a cada dia fica mais difícil a convivência humana. Se nada for feito de imediato, é melhor que cada cidadão prepare o espírito para a volta daquele estágio de "civilização" onde predominava a barbárie humana, onde ninguém respeitava ninguém, onde matar e morrer por causas banais era a coisa mais comum do mundo. Muitos, de olhos arregalados, já constataram e gritam por socorro, que isso não é futuro não, já voltamos a esse estágio há muito tempo... Apesar disso, você que é pai ou educador, não desista de sua missão educativa! Procure fazer bem a sua parte educativa com os mais jovens. Ainda há esperança de mudar, para melhor, a realidade...

* No site www.editora-opcao.com.br o escritor Antonio de Andrade apresenta seus livros e artigos. Mais informações como a deste artigo, nos seus livros "Disciplina e a Educação para a Cidadania" e "Criança Feliz, Adulto Feliz" ou no artigo Educação: as qualidades urgentes! encontrado pelo link www.editora-opcao.com.br/ada47.htm.

* Por 4 anos, em Lorena, SP, o autor foi membro do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, presidente do Conselho Municipal de Assistência Social e Secretário Municipal do Desenvolvimento Social.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O Amor Gaico

O Amor Gaico Estesia como azimute a re-educação: a busca de um amor ‘Gaico’


(por: Rodrigo Mendes Rodrigues


quinta-feira, 24 de março de 2011

Síntese da Fala - Programa de Sábado

De religiões e Planeta - breves notas

"Deus é Amor. Para nos ensinar a amar, ele inspirou o aparecimento das religiões. Deus mesmo não tem religião, mas pode ser encontrado através de todas elas" (Frei Betto)

O objetivo das religiões ou tradições religiosas é possibilitar ao ser humano a construção de um sentido de vida. O Ensino Religioso trabalha o diálogo inter-religioso, com o objetivo de conhebmacer e compreender o conhecimento historicamente acumulado pelas diferentes tradições religiosas. Quando este conhecimento é estudado e aprendido, quebram-se muitos dos nossos preconceitos. A gente aumenta as possibilidades de compreensão da religiosidade dos outros quando conhecemos os fundamentos e razões de sua religiosidade.

É possível dizer que não há como trabalhar o Ensino Religioso nas escolas sem falar da dimensão do amor, um dos valores mais sagrados e exaltados pelas religiões. O amor é compreendido na dimensão do cuidado: consigo mesmo, com os outros e com o planeta (demais seres vivos). O amor, valor universal pregado pelas religiões, é a base da preservação da vida e pilar na busca da felicidade e dignidade humanas. Propõe, ainda, a superação do individualismo exacerbado.

Se existem em torno de 65 mil religiões no mundo e, aproximadamente, 5 mil diferentes denominações religiosas no Brasil, é porque em nosso momento histórico vivemos carentes de espiritualidade e de respostas existenciais. Estamos falando de um mundo que evoluiu extraordinariamente na compreensão dos fenômenos da natureza e na produção de altas tecnologias que buscam facilitar a vida dos seres humanos, mas este mesmo mundo não foi capaz de possibilitar respostas que levem à plena felicidade e realização do ser humano.

Nosso mundo é feito de grandes contradições. Ao mesmo tempo em que festejamos os avanços tecnológicos na produção de alimentos, por exemplo, ainda há muita fome no mundo e no Brasil. Enquanto nosso PIB cresce, permanece a concentração de nossa renda. Enquanto ainda ocorre o abandono do campo, acontece a ocupação desordenada e perigosa nas periferias das grandes cidades. Enquanto buscamos paz, ainda muitos promovem a guerra em nome de seus interesses mesquinhos e individualistas. Enquanto nos orgulhamos com projetos de irrigação, poluímos nossas fontes de água potável, indispensáveis para a nossa sobrevivência. Tudo isto porque nos orientamos pelos valores individualistas e egoístas, que não nos permitem ocupar a terra e o planeta de forma racional e sustentável. Tudo isto porque produzimos tecnologias avançadas com a intenção de tão somente alimentarmos a ideologia de nosso consumo, ideologia esta que tem sido a base de nosso padrão de convivência e civilização.

É impressionante como já temos muitas informações sobre como deveríamos agir diante da vida e do planeta. O que temos como informação, deve agora traduzir-se em conhecimento. Este é o papel da escola e da educação: dar sentido útil e prático àquilo que todos nós já sabemos e aprendemos sobre a sustentabilidade, o meio ambiente, o bem-estar social, a biodiversidade, os demais seres vivos.

Há que se re-inventar nosso modo de viver e agir no mundo. Fala-se de uma Ética do Cuidado, onde as novas relações, hábitos e a mudança de nossas mentalidades façam a escolha de preservar a vida. É chegada a hora da evolução de nossa consciência. As futuras e a atual geração tem de ser beneficiadas por esta escolha. As religiões podem e devem nos orientar para que, em vida, possamos usufruir das melhores condições de vida e dignidade, em harmonia com o nosso ambiente.

Começe você mesmo, agora, a tomar pequenas atitudes que resultem na preservação da vida no planeta. Você faz a diferença! E esta diferença deve amenizar o impacto da ocupação que você faz da natureza, a partir dos seus recursos naturais. Não esqueça que as crenças, a vida dos seres vivos e as boas atitudes são o que de mais sagrado podemos dispor para o mundo.

Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.
pies.neialberto@gmail.com

quinta-feira, 17 de março de 2011

De uma Escola Aberta - Nei Alberto Pies

De uma Escola Aberta

“Os protagonistas aparecem e se esvaecem para seguir vivendo, história atrás de história, em outros personagens, que lhes dão continuidade. Tecidos pelo fio do tempo, eles são o tempo que fala: são bocas do tempo” (Eduardo Galeano, em De pernas pro ar – A escola do mundo ao avesso, LPM)

Ainda existe uma Escola Aberta em nossa cidade. Uma escola aberta para uma prática pedagógica que promova, fundamentalmente, a inclusão através da apropriação do conhecimento, com interação social. E que tem por filosofia ser uma “escola questionadora e transformadora das práticas sociais, que garanta o exercício dos direitos da criança e do adolescente, oportunizando meios para a construção do conhecimento e exercício da cidadania”. Mas qual será mesmo a função social deste educandário? Quais razões justificam hoje a sua existência?

O surgimento da Escola Aberta, hoje Escola Estadual de Ensino Fundamental de Passo Fundo, remete a um determinado momento histórico. No ano de 1993, cria-se uma Comissão Interinstitucional composta pela Coordenadoria Regional de Educação, Fundação de Bem-estar do Menor, Secretaria Municipal de Educação, Sexta Coordenadoria Regional de Saúde, Juizado de Menores, Câmara de Vereadores e representantes de associações de bairros. Buscava-se, à época, construir uma escola e um currículo que tivesse por objetivos promover “os menores desassistidos pela escola regular” para “uma condição de se educar, ser respeitados, poder criar, escolher, decidir e sonhar”. Afirmava-se a intenção de não postular uma nova escola, mas recriar a própria escola numa dimensão social mais viva.

Desde então, com maior ou menor atenção e apoio dos gestores educacionais, a escola vem cumprindo, heroicamente, a missão de acolher e trabalhar com crianças e adolescentes que não tem encontrado suficiente acolhida e inclusão na escola regular, a maioria em descompasso de idade e escolaridade. Os educandos participam de aulas regulares, pela manhã, e oficinas, pela parte da tarde. “Para além da formação básica, as oficinas buscam incentivar e propiciar uma formação para o trabalho e a valorização da vida, permitindo também uma maior integração e vivência em grupo que leve os adolescentes a serem agentes de transformação junto à família e seu meio social mais amplo” (Doc. Proposta para estruturação e implantação, janeiro 1993)

Como em toda escola pública, a direção e o corpo docente da Escola Aberta vem lutando bravamente para manter as melhores condições do espaço físico, do trabalho pedagógico e do processo de ensino-aprendizagem. Mas a esta escola agrega-se uma função mais do que educativa: a dimensão da humanização, da convivência social, da construção dos sujeitos de direitos, da motivação para estudar. E para que possa exercer sua dimensão social, precisa ser tratada com mais prioridade. Precisa ter mais apoio, para um trabalho multidisciplinar. Precisa ser reconhecida pela sociedade por seu trabalho de acolhimento, educação, inclusão e cidadania. Precisa de um olhar diferenciado, que permita que se faça a diferença.

Estamos, hoje, em outro momento histórico. A Escola Aberta justifica-se hoje por ser um espaço educativo capaz de atender e entender um contingente de crianças e adolescentes que não tem sido compreendidos e entendidos em escolas regulares. Aqui, procura-se fazer uma fusão entre escola-arte-cultura-linguagem-cidadania-convivência-conhecimento. Passo Fundo, como outras cidades, precisa de um espaço educativo que desafie para uma formação integral do ser humano, a começar pelas nossas crianças e adolescentes mais vulneráveis. E atesta, para todos nós, que para humanizar a gente, só mesmo cuidando dos outros.

Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Das crianças para os adultos ou Do retorno à escola

Das crianças para os adultos ou Do retorno à escola

“O medo tem alguma utilidade, a covardia, não”. (Mahatma Gandhi)

As crianças produzem as mais puras obras da sensibilidade humana e nos orgulham com seus ingênuos e inocentes encantos. Crianças, adolescentes e jovens facilmente percebem quando um professor ou professora lhes oferece sabedoria, recheada de amor e dignidade. Sabem também reconhecer, como reconhecem seus pais, que professores trabalham duro e não são reconhecidos e nem estimulados a realizarem-se, com dignidade, no seu ofício de ensinar. Deles, somente deles, os professores recebem flores e presentes, em forma de agradecimento e reconhecimento por tudo que fazem por eles.

A sensibilidade é própria daqueles que estão de bem com a vida e se envolvem numa catarse de movimentos que geram boas percepções de vida, de ser humano e de beleza, daqueles que tem olhos para ver, ouvidos para ouvir e boca para falar, serenamente. Por sua vez, quando reina a insensibilidade, esta gera auto-suficiência, arrogância e rancor, qualidades que não cativam e não agregam ninguém.

Oferecemos, todos os dias, o melhor do que somos, por amor às nossas crianças. Ofertamos a elas luzes de esperança, forjadas na cotidiana luta de superação pessoal e profissional. Se os adolescentes sonham em transformar o mundo, mostramos a eles caminhos de saudável rebeldia, arrebatadora de causas, sonhos e desejos que move a cada um e cada uma. Se jovens e adultos acreditam no poder do conhecimento, os estimulamos a fazerem suas buscas na vida pessoal e profissional, através de seus estudos.

Sensibilidades afetivas, sociais e políticas constituem um legado daqueles que escolheram ser professor ou professora. Por obra desta paixão, fazem-se compreensivos com os outros, e sofredores com eles, crentes que cada ser humano possui as mais ricas e únicas possibilidades de superar-se. Como na educação, também na política, só deveriam atuar aqueles que, acima de vaidades e interesses, sejam capazes de agregar-se na crença de que todo ser humano é capaz de superar-se em todos os seus contextos, singularidades e peculiaridades. Para isto serve a política e a educação: propiciar instrumentos às pessoas para sua liberdade e sua emancipação.

Daqueles que assumem posições de poder, espera-se que sejam abertos ao diálogo, mesmo que na dureza das críticas dos outros. Que se interessem pela coletividade, sem desfazer-se de suas motivações e convicções políticas. Que saibam avançar nas proposições, mas também recuar quando se faz necessário. Que desenvolvam habilidades capazes de justificar as intenções que desejam concretizadas na coletividade.

“Quem luta, também educa”. Quem ama, também educa. Quem não se acovarda de sua consciência, ganha mais vida na dignidade, justamente por assumir-se como é. Quem educa segue acreditando que educação não é um fim, mas meio para estimular os mais loucos desejos do ser humano: a felicidade. E não aceita o discurso desvairado que nos acusa de “torturar” nossas amadas crianças.

Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos
pies.neialberto@gmail.com

terça-feira, 8 de março de 2011

A cor da maior festa popular do Brasil

Negras de diferentes épocas serão homenageadas no Carnaval

sábado, 5 / março / 2011 por Daiane Souza

Por Daiane Souza

Instituído Dia Internacional da Mulher, 08 de março foi a data escolhida pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975 para que nela fossem celebradas as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres. Este ano, a data cai na terça-feira de Carnaval e, por isso, blocos de rua da Bahia incluíram na programação homenagens ressaltando a mulher negra.

Por se tratar também de um dia de reflexão, são comuns os protestos contra a discriminação e a violência a que muitas, principalmente as negras, ainda são submetidas. Para marcar a data de reconhecimento, o bloco Cortejo Afro de Salvador buscou destacar a presença feminina. Na terça-feira, sua bateria será composta por 200 percussionistas, além de senhoras da terceira idade e baianas tradicionais.

Margareth - Ainda na capital baiana, o Afoxé Ilê Oyá reunirá 800 mulheres, em tributo às negras guerreiras, baianas e mães-de-santo que fizeram parte da história do terreiro. A idéia é apresentar à sociedade a força das que lutaram para preservar e divulgar sua religiosidade. No mesmo dia, a cantora Margareth Menezes e convidados ressaltarão, com canções, o valor da mulher brasileira no último dia de Carnaval.

Paralelamente aos shows e eventos de rua, referências negras serão recordadas de outras formas. Aproveitando o encontro de datas, a Secretaria de Promoção da Igualdade do estado da Bahia lança, ainda na terça-feira, o livro Carnaval no feminino. A obra é composta por 38 perfis de mulheres que têm fortes laços com a folia, dentre as quais se destacam Alaíde do Feijão, Negra Jhô e a ialorixá Jercília.

Guerreiras – Guerreiras de diferentes épocas lutaram para consquistar espaço na sociedade das mais diversas formas, todas enfrentando o obstáculo do preconceito de cor. Muitas alcançaram, além de respeito, posições inimagináveis para sua época. Conheça algumas dessas personalidades:

Antonieta de Barros (1901 – 1952)

Jornalista negra, educadora e primeira mulher a integrar a Assembléia Legislativa de Santa Catarina, Antonieta de Barros trabalhou em defesa dos direitos da mulher catarinense.

Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977)

Escritora e célebre intérprete lírica brasileira, radicou-se nos EUA, onde seguiu carreira. Quarto de despejo, sua obra mais conhecida, foi traduzida para 13 línguas.

Chica da Silva (1732 – 1796)

Escravizada aos 22 anos de idade, passou a viver com o contratador de diamantes português João Fernandes. Alcançou prestígio na sociedade local e usufruiu de regalias exclusivas das senhoras brancas.

Mãe Menininha (1894 – 1986)

Descendente de escravos, foi a mais famosa Yalorixá do País. Aos 28 anos, assumiu o Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê. Foi uma das principais articuladoras do fim das restrições ao Candomblé.

Tereza de Benguela (Sec XVIII)

Era a Rainha do Quilombo do Quariterê, em Cuiabá. Sob sua liderança, as comunidades negra e indígena resistiram à escravidão por duas décadas. Comandou a estrutura política, econômica e administrativa do quilombo.

Tia Ciata (1854 – 1924)

Cega desde os 17 anos, criou a Fundação para o Livro do Cego no Brasil, que produzia e distribuía gratuitamente livros em Braille. Foi considerada pela revista Época um dos 100 brasileiros mais influentes de 2009

quarta-feira, 2 de março de 2011

Inclusão escolar

Inclusão Escolar

Escrito por Bárbara Parente.

Não tenho a pretensão de ensinar aos professores, como ministrar o conteúdo programático a uma criança com deficiência, mas sim sensibilizá-los quanto a necessidade disto. A ideia é que a inclusão aconteça de fato e de direito.

Atualmente, encontramos locais onde a integração (percebam que não estou falando nem de inclusão), acontece apenas pelo fato de ser um direito adquirido, com respaldo legal. Em muitas escolas, apenas pelo medo, pelo poder coercitivo é que acontece a integração e não a inclusão. Muitas vezes, as crianças ficam jogadas dentro de uma sala de aula, em um canto da sala sem nenhum auxílio, quando muito, pedem para alguém (e muitas vezes esta pessoa não é um professor), para ficar ao lado da criança com deficiência e esta postura não é nem com o intuito de educa-la, e sim de não permitir que a criança com deficiência atrapalhe o “bom andamento da aula”, como se as pessoas não fossem eterna fonte de aprendizado. Digo isto, pois particularmente já vivi isto. Meu filho ficava deitado no chão no canto da sala, enquanto seus coleguinhas estavam sentados nas cadeiras fazendo seus trabalhinhos. E sabe quem auxiliava o meu filho? Pasmem! A faxineira! Nada contra esta pessoa que na minha ausência e falta de comprometimento da escola, auxiliava o meu filho na medida do possível. Apenas digo isto, porque não era uma pessoa preparada para tal feito.
Mas neste contexto afirmo que esta faxineira estava mais preparada para a inclusão do que a própria professora que ignorava o meu filho e transferia a sua obrigação de ensinar a quem quer que seja. Esta faxineira dispensou ao meu filho a possibilidade de inclusão que ela conhecia, pois ela, a faxineira e não a professora tentava ensinar o exercício ao meu filho, bem como o levava para brincar no parquinho com as outras crianças e com que alegria ela me contava e mostrava como o meu filho fazia nestes momentos. Enquanto aquela, a professora, que estudou, que se preparou para tal demanda, sequer percebia o meu filho. Por isso, muito mais que a inclusão como imposição da lei, devemos atentar para a diversidade humana, o aprendizado na diversidade e principalmente, ninguém sabe o dia de amanhã.
Sei também que existem professoras que são comprometidas com TODAS as crianças e que por isto em algumas escolas a inclusão acontece. Meu muito obrigada a estas professoras e espero que estas se multipliquem,

Disponível em:
Blog Conversando sobre Inclusão.
http://www.barbaraparente.blogspot.com/

Bárbara Parente.
Tel.: (21)7881-9895
ID.:12*68624

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Do tempo do professor. Do professor no tempo

Do tempo do professor. Do professor no tempo

“A escola possui algumas estratégias para manter a motivação do professor, para que a situação seja boa para todos. Um ambiente bom para todo mundo favorece a educação”. (Luiz de Oliveira, diretor da escola EMEF São Luiz Gonzaga, Passo Fundo, RS)

Todos somos sujeitos aprendentes da vida, do tempo e do conhecimento. Em especial, educadores e educadoras, ao reiniciarmos mais um ano letivo, nos perguntamos sobre o nosso tempo, sendo ainda desafiados a nos situarmos no nosso momento histórico. Surgem inevitáveis perguntas: como ocupamos nosso tempo? Qual é o tempo que temos para a gente quando precisamos trabalhar quarenta ou sessenta horas semanais? No ritmo e na intensidade de nosso trabalho, conseguimos compreender que os diferentes ritmos de aprendizagem de nossos educandos sugerem tempos de intervenção diferentes de nossa parte?

Sabemos da grande responsabilidade de educar que a comunidade deposita na gente. Demonstramos, sempre, nossa disposição de empreenderemos nosso melhor tempo e nossas melhores energias para o desabrochar das potencialidades e habilidades de nossas crianças, adolescentes e jovens. E temos a responsabilidade de fazer a aprendizagem acontecer, porque nós somos os especialistas da educação. Para tanto, desejamos reafirmar nossos compromissos, cobrando dos gestores da educação os meios e apoios que necessitamos para darmos conta deles.

Estamos dispostos e motivados a colaborar com propostas políticas e pedagógicas que resgatem a dignidade da nossa profissão. Todos os dias somos convidados para re-fazer a nossa opção pela profissão que escolhemos, pois “educar é nossa vida, lutar é a nossa atitude”. Estamos atentos e esperançosos com as manifestações do Secretário estadual de educação José Clovis de Azevedo sobre o sentido da educação: a aprendizagem dos alunos. O Secretário tem insistido na idéia de que a aprendizagem é um direito de todos, portanto a escola pública deve permitir o acesso ao conhecimento com qualidade social. Tem sinalizado de que é preciso recuperar e modernizar as estruturas físicas de nossas escolas para inspirar dignidade dos educadores e dos educandos. Tem afirmado os princípios do acolhimento, do cuidado e da inclusão como os pilares para a construção de um novo senso comum sobre os sujeitos da escola pública e da aprendizagem. Tem apostado que a democratização, a participação e a formação dos professores serão as alavancas para a qualidade do ensino público da rede estadual do Rio Grande do Sul.

São grandes e ousadas as propostas para a educação pública do Rio Grande do Sul. Resta que respondamos como será possível, a partir das práticas e diversidades cotidianas de nossa escola, fortalecermos a dimensão desejante do aprender e do ensinar. “É preciso resgatar o desejo e o prazer de ensinar dos professores, assim como o desejo de aprender dos alunos” (Ginez Leopoldo R. de Campos, professor)

Os educadores e educadores vivem tempos em busca de sua dignidade e de reconhecimento social. Desejam, contudo, alcançar a sua realização, com qualidade de vida. Não esperam, contudo, nenhuma fórmula mágica, mas esperam que seja feita pela educação aquilo que realmente precisa ser feito. Desejam um tempo de trocas, tempo para estudar, tempo para refletir e repensar as suas práticas. O tempo, mais uma vez, para além de um desejo, é uma necessidade para re-colocar o papel do professor em nosso tempo histórico. Como disse Felipe Biasus, na tentativa de nos motivar: “acreditar é preciso/buscar o sonho é fundamental/estar ciente da frustração é necessário”.

Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos

Nei Alberto Pies, professor da rede estadual do RS e rede municipal de Passo Fundo-RS. Licenciatura em Filosofia e especialista em metodologia do ensino religioso. Educador popular e ativista de direitos humanos. Associado à Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo há 15 anos. Desde o ano de 2007 publica artigos em periódicos e jornais locais e regionais, relacionados com os temas da cidadania, direitos humanos, inclusão, política, filosofia e educação.

Da roça ao mestrado em agroecologia em Cuba

Da roça ao mestrado em agroecologia em Cuba

Poliane Oliveira Dutra

“Oportunidades surgem na vida da gente graças a muita luta do povo pobre organizado.” (Poliane)

Todas as fases da vida são muito importantes desde que nascemos até quando, pela morte, passamos para a vida plena. Acredito que a juventude é a fase mais linda e mais forte da vida. Faço esta afirmação sabendo que corro o risco de estar cometendo um erro, mas insisto em fazer, porque estou vivenciando esta fase da minha vida. Sou uma jovem e acredito que nesta fase é quando sonhamos mais, buscamos mais, temos mais esperança e coragem, sentimos uma vontade imensa de mudar o mundo e sabemos que, se nos dão essa oportunidade, somos capazes de mudá-lo. É verdade o que dizia Che Guevara “O alicerce fundamental da nossa luta é a juventude.” Se queremos fazer revolução em qualquer parte do mundo é necessário envolver a juventude.
Mas diante de uma conjuntura tão complexa que vivemos e pelo fato do nosso país ser capitalista, com tanta desigualdade, tanta injustiça e tantos problemas sociais, a pergunta que surge é: como anda a juventude brasileira? Muitos jovens no nosso Brasil diariamente enfrentam com realidades tão duras, tão difíceis que as expectativas de uma vida melhor, os sonhos, nem conseguem fecundar, criar e recriar em suas mentes e em seus corações. Se tudo é tão difícil, o jovem pode se perder. Somos milhões. O que fazer? Qual o projeto que existe para a juventude? Atualmente encontramos milhares de jovens alienados pelos meios de comunicação, pelas músicas sem fundamento e cultura, milhares se destruindo nas drogas e na prostituição, a grande maioria não consegue estudar. Fazer uma faculdade é impossível para a maioria. As limitações da vida para a juventude são tantas que os jovens acabam perdendo o direito de sonhar e o fato da maioria dos jovens não estarem envolvidos em grupos sociais organizados e comprometidos com a mudança da sociedade, não contribuem com o potencial revolucionário que existe dentro de cada jovem para a mudança do nosso país. A grande maioria limita-se na vida a lutar pela sobrevivência, que é uma luta árdua e pesada, e outros resumem suas vidas a mesquinharias.
Faço essa introdução porque acredito na juventude como instrumento de mudança da sociedade. Sei que não é fácil ser jovem e mulher em uma sociedade tão individualista e com um sistema tão perverso como o capitalismo. Acredito que a juventude precisa ser valorizada, convocada para o mutirão de construção de uma sociedade diferente, o Brasil que queremos. Se hoje sou uma jovem que sonho e tenho perspectivas para o meu futuro é graças à organização e a luta dos movimentos sociais do campo nos quais me engajei e faço minha militância.
Outro dia tive a alegria de ler um texto, um testemunho da jovem Gisele Antunes, que era menina de rua e hoje faz medicina em Cuba. Fiquei muito comovida com sua história. Ao ler, senti força, alegria e esperança. É vital acreditar na vida. Que bom conhecer uma jovem que, ao encontrar uma oportunidade de crescer como cidadã, agarrou a chance e está lutando. Animada por Gisele, resolvi contar um pouco da minha história, na esperança de socializar um pouco das proezas que os movimentos sociais populares vêm conquistando. Ao contar, revelarei também meu reconhecimento e eterna gratidão a todos que me apoiam na luta. Quem sabe servirá de luz e esperança para outras pessoas, outros jovens.
Durante toda minha vida vivi no campo. Sou uma jovem de 26 anos da região Noroeste do estado do Espírito Santo. Vivo no município de Barra de São Francisco, em uma comunidade que se chama Valão Fundo, um lugarzinho muito gostoso, aconchegante de se viver que tem como principal cultura e renda para as famílias o café conilon. Aqui aprendi o que é viver em comunidade. Tenho uma ligação muito forte com a mãe terra, com o campo, com a agricultura, com as pessoas do campo. Sou de família pobre. Os meus pais eram camponeses, viviam somente da renda que a terra gerava. Aos oito anos de idade, perdi minha mãe Genilda Dalva de Oliveira Dutra por problemas de coração. Meu pai Ilson Ricardo Dutra, cansado com a lida na terra, desistiu de ser camponês e foi para a cidade de Vitória, capital do Espírito Santo. Foi ser ajudante de pedreiro, trabalhar na construção civil. Minhas duas irmãs e eu não fomos com nosso pai, pois seria muito difícil cuidar de três filhas na cidade grande. Ficamos na roça, cada uma morando com um tio, irmãos da minha mãe. Fui criada por meu tio Gênis Oliveira Sobrinho, carinhosamente chamado de Tizil, irmão da minha mãe e pela minha tia Maria da Penha Miranda de Oliveira, sua esposa, que são meus padrinhos, pessoas que admiro e amo muito, a eles sou eternamente grata pelo carinho, cuidado e contribuição na minha formação. Esse momento da minha vida foi muito difícil. Perdi minha mãe, meu pai e fui criada separada das minhas irmãs. Desde então coloquei como propósito na minha vida que o estudo seria um farol da minha vida.
Quando fui fazer a 6ª série do Ensino Fundamental a minha vida mudou completamente. Conheci a Escola Família Agrícola – EFA -, que trabalha com a Pedagogia da Alternância. O estudante fica uma semana na escola e uma semana na comunidade, trabalhando a teoria/Práxis, onde desenvolve a Educação do Campo. As EFAs são escolas que foram feitas com uma pedagogia própria e apropriada para os jovens do campo; mostram que é possível trabalhar uma educação libertadora e emancipadora do ser humano. Por este projeto me apaixonei e pela primeira vez na minha vida comecei a ver luzes, esperanças. Identifiquei-me com a escola, com a proposta pedagógica. Aprendi a valorizar a cultura camponesa e a fortalecer a minha identidade de jovem da roça. Reconheci que jovem da roça também tem valor. Sou camponesa com orgulho. Não tenho vergonha de capinar, plantar, colher, viver da terra.
Dentro da sua proposta pedagógica, as Escolas Famílias Agrícolas têm como objetivo a formação integral do sujeito e despertar no estudante a importância de ser um sujeito protagonista do seu meio, da sua comunidade, pois todo estudo é voltado para a realidade do estudante, onde acreditamos na primasia da vida sobre a sala de aula. A vida ensina muito mais do que a sala de aula. Por isso fazemos um estudo contextualizado na realidade do povo camponês. Não aprendemos a ter uma visão romântica do campo. As EFAs, que já são cerca de 150 no Brasil, despertam nos jovens o senso crítico e a capacidade de análise e a convicção de que é preciso se organizar e lutar por um campo com melhores condições de vida.
Ao discutir os nossos problemas da roça, comecei a entender porque nosso povo do campo sofre tanto, a entender porque existia o meeiro, porque é tão caro para os camponeses produzirem e difícil encontrar mercado para os seus produtos, a falta de investimento na pequena agricultura, a camponesa. Pela primeira vez na vida ouvi falar e conheci os movimentos sociais do campo. Foi por causa da proposta pedagógica da Escola Família Agrícola que dentro da escola fui me destacando como liderança, fui me envolvendo. Com o passar do tempo foi despertando em mim, de maneira forte e muito segura, que eu queria ser monitora de Escola Família Agrícola, quer dizer, ser educadora da Pedagogia da Alternância em alguma Escola Família Agrícola.
Estudei nesta escola que fica situada em Barra de São Francisco, ES, até a 8ª série, pois nesta escola não tem Ensino Médio. Para eu conseguir continuar no projeto da Pedagogia da Alternância, teria que ir estudar em uma EFA de Ensino médio em outro município, pois na época não tinha no meu município. Foi uma grande frustração na minha vida, pois não consegui; era muito longe. Fui para a escola convencional do meu município, popularmente conhecida como estadual, senti na pele a diferença dos estudos. Mas serviu para reforçar em mim que eu não deveria desistir dos estudos e do que eu sonhava. Mas continuei militando na EFA. Fui eleita para fazer parte do conselho da Associação dos agricultores da escola. Tornei-me a primeira ex-estudante a fazer parte de uma associação dos agricultores das EFAs, em nível de estado. Por isso sempre estive presente na vida da escola, participando de reuniões, encontros, assembleias etc. Comecei a fazer parte da Pastoral da Juventude Rural – PJR -, que também trabalha com os jovens da roça, onde fortaleci ainda mais a minha identidade camponesa.
A PJR é uma pastoral que reivindica melhoria de vida para a juventude rural, com o intuito de fazer do campo um lugar com condições dignas de vida, que tem um caráter libertador e atua junto aos movimentos sociais do campo. Na PJR eu continuo militando. Comecei a participar das CEBs – Comunidades Eclesiais de Base -, que é a parte da igreja com a qual me identifico muito, porque trabalha com a Teologia da Libertação. E até hoje bebo da espiritualidade libertadora que a CEBs proporciona, onde me fortaleço a cada dia.
Em 2003 terminei o Ensino Médio na rede pública estadual. E tinha o sonho de poder fazer uma faculdade, mas sabia que seria muito difícil. Dinheiro não tinha para pagar e tinha consciência do estudo fraco que tive no Ensino Médio e seria muito difícil passar em uma universidade pública. Mesmo assim tentei vestibular em duas federais. Não tinha mais dinheiro para pagar inscrição em outras universidades e, como milhares de jovens pobres do Brasil, chorei muito, porque não consegui passar. Uma certeza repetia no meu coração: quero continuar estudando. Continuei militando e trabalhando.
Em 2004 aconteceram duas coisas muito importantes para mim: comecei a lecionar em uma EFA e iniciei um curso universitário. Primeiro, fui convidada para fazer o curso de Graduação em Licenciatura Plena em Ciências Agrárias na Universidade Federal da Paraíba - UFPB. Quem me convidou foi a RACEFFAES - Regional das Associações dos Centros Familiares de Formação por Alternância do Espírito Santo -, que coordena politicamente e pedagogicamente 19 EFAs no norte do Espírito Santo. Ao ouvir a proposta, fiquei muito feliz, pois estava perto de realizar um dos meus maiores sonhos. Curso esse em convênio com a UFPB/PRONERA e Via Campesina dentro do método da Pedagogia da Alternância. Cada etapa do curso era de dois ou três meses, tínhamos o “tempo Universidade” e o “tempo comunidade”. Foi uma felicidade sem tamanho. Aceitei a proposta e fui estudar na Paraíba, na turma da Via Campesina, representando a RACEFFAES. Foi uma experiência incrível. Nossa turma era formada por jovens camponeses de 17 estados do Brasil. Que riqueza cultural! Aprendi muito, além do estudo científico adquirido, cresci muito como pessoa, como militante e politicamente, aprendi muito com os movimentos sociais. Sofremos muito preconceito na Universidade, a ponto de alguns professores, que se diziam ser tão estudados, se negarem a dar aula para nós, porque éramos Sem Terra. Conquistar infra-estrutura, alimentação, livros, transporte só com muita luta. Algo tremendamente relevante foi estudar no Nordeste e conviver com o povo nordestino. Quanta sabedoria! Minha turma foi a primeira turma de Ciências Agrárias da Via Campesina, uma grande conquista. Além da minha turma, há várias outras turmas de outros cursos, que já terminaram e outros que ainda estão estudando. São cursos de História, Pedagogia, Veterinária, Agronomia, Economia, Direito, Comunicação, Agroecologia etc. Tudo conquistado graças a muita luta da classe trabalhadora, dos movimentos sociais do campo.
Segundo, em 2004, conquistamos uma EFA de Ensino Médio Profissionalizante em Barra de São Francisco e tive a oportunidade de realizar outro grande sonho: o de me tornar monitora de Escola Família Agrícola. Comecei a trabalhar na escola onde estudei. Já podia lecionar, pois estava cursando uma licenciatura. Foi uma grande realização, enquanto pessoa e profissionalmente. Poder trabalhar em um projeto que acredito me faz feliz.
Em 2008 concluí a faculdade de Ciências Agrárias. Com muita dificuldade fizemos uma linda festa. Lembro que ninguém da minha família participou, porque não tinha condições financeiras para poder viajar e participar. No ano de 2008 tive a oportunidade de trabalhar na secretaria da Via Campesina, em Brasília, a convite do MST acompanhando a luta contra os transgênicos e as transnacionais. Quanto aprendizado! Ampliei meu leque de conhecimento e contribui com a classe trabalhadora. Foi também um momento de muita angústia na minha vida, pois presenciei de perto o descaso de deputados, senadores, das autoridades com o nosso povo brasileiro. Eu participava de Audiências Públicas e saía indignada com o que ouvia dos pretensos representantes do povo brasileiro, mas serviu para fortalecer em mim que a mudança que queremos para o Brasil infelizmente não vai acontecer via processo eleitoral. É preciso o povo se organizar e fazer a revolução.
Em 2009 voltei a lecionar na EFA de Ensino Médio de Barra de São Francisco, já licenciada e com mais condições de contribuir com as EFAs. Oportunidades surgem na vida da gente graças à luta do povo pobre organizado.
Desde que comecei a minha militância, toda vez que ouvia falar de Cuba sentia uma forte vontade de conhecer a pequena ilha socialista que serve de exemplo para todos que sofrem as agruras do capitalismo. E eis que, através dos movimentos sociais do campo, pintou a oportunidade de eu estudar em Cuba. Eu e outros oito jovens da Via Campesina estamos fazendo mestrado em Agroecologia na Universidade Agrária de La Havana, em Cuba. Estudar no meio do povo cubano, representando a Via Campesina, é no mínimo um processo de humanização na vida da gente e a confirmação da certeza que a luta dos movimentos sociais é justa, legítima e necessária.
Estudei em Cuba sete meses, em 2010. Vi e vivenciei verdadeiras proezas, verdadeiros milagres. Dizer que Cuba não tem problema é mentira, mas também dizer que o socialismo não funciona é outra mentira. É impossível não admirar e não respeitar a história de luta por libertação de Cuba e do povo cubano. Fidel Castro não é ditador, pelo contrário, é admirado, respeitado e amado pelo seu povo e tanta gente digna pelo mundo afora. Dia 3 de setembro de 2010, participei de um Ato Público em La Havana, onde Fidel discursou. A multidão foi para as ruas somente para ouvir ele falar. Diferente do que a Mídia passa, em Cuba não existe ditadura; há, sim, um poder popular. O povo tem representantes escolhidos por eles através dos conselhos populares. E cada representante popular que trabalha no governo não recebe por isso. Recebe seu salário de outro trabalho que exerce na sociedade, como, por exemplo, professores, cozinheira, secretária etc. Trabalham no governo e no trabalho formal para poderem receber seus salários como qualquer outro trabalhador cubano. Em Cuba, há 500 deputados eleitos que não recebem salário por ser deputado.
Outro ponto muito importante que a mídia ignora é o bloqueio econômico imposto sobre Cuba pelos Estados Unidos, que é muito injusto e dificulta a vida de todos por lá. Cuba não é um país rico em recursos naturais e depende de muitos produtos externos e compra tudo mais caro, devido ao bloqueio. Por isso o povo vive com condições limitadas.
O governo faz verdadeiro milagre. Mesmo com tanta limitação, o povo tem acesso a Educação de qualidade. Já imaginou, nenhum cubano é analfabeto! Isso é único. Mais de 35% da população cursa ensino superior.
O sistema de saúde funciona. Tantos médicos, enfermeiras. Tenho 26 anos e aqui no Brasil nunca vi um médico negro, nunca consultei com um. Em Cuba vi vários e consultei com vários. Em Cuba, medicina não é profissão de branco rico, é profissão de quem tem dom para exercê-la. Na pequena ilha não existe racismo, as pessoas são livres. Tem investimento e incentivo para o esporte, para a cultura, o povo tem acesso ao cinema, teatro, dança etc, por um preço acessível, não se vê violência. Os cubanos são muito felizes, adoram conversar, dançar, são divertidos.
Na agricultura estão mostrando na raça que é possível produzir de forma agroecológica de maneira livre sem alimentar o monopólio das transnacionais no uso de agrotóxicos e adubos sintéticos. Cuba está em uma luta para garantir a produção de alimentos e importar o mínimo possível. O Governo fornece subsídios, assistência técnica, implementos agrícolas para incentivar a agricultura na produção de alimentos; compra 80% da produção dos camponeses por um preço justo e repassa esses produtos para o povo por um preço muito mais baixo. Vi e vivenciei momentos com um povo culto, alegre, que são alimentados com a mística do cuidado, do não consumismo, do não desperdício, consciente do sistema no qual vivem e por isso não querem outro, porque sabem que com o sistema capitalista os pobres não têm vez e nem voz. Pude sentir a solidariedade, acolhida, o internacionalismo que Cuba tanto defende, prova disso que somos nove jovens pobres da Via Campesina estudando em Cuba em convênio com o Governo Cubano e assim, como nós, mais de 15 mil jovens do mundo todo. Em Cuba, pela Via Campesina temos companheiros estudando medicina, veterinária, agroecologia, História da Arte e outros cursos. Cursos esses que são conquistas da organização e da luta do nosso povo pobre, da classe trabalhadora que nesta instância, representados pela Via Campesina, pelos movimentos sociais do campo.
No mestrado discutimos e aprendemos muito sobre a Agroecologia, que é uma nova ciência, um novo paradigma que está colocado para nós que precisamos estudar, entender e colocá-la em prática. A Agroecologia vai muito além de simplesmente substituir na agricultura insumos sintéticos por insumos orgânicos. Agroecologia é uma postura de vida, junto com ela vem uma mudança da estrutura da sociedade, do sistema, porque defende a vida e o Planeta. Defende a produção limpa de alimentos saudáveis, não simplifica os agro-ecosistemas, respeita a complexidade da natureza. E vai contra esse modelo de exploração, de consumismo e destruidor da vida. Sem Agroecologia não é possível uma sociedade diferente.
Sou uma jovem pobre que tive oportunidade de estudar e passo-a-passo estou realizando meus sonhos. Tenho certeza que se não fosse meu envolvimento, minha militância nos Movimentos Sociais Populares, jamais teria conseguido chegar até aqui e sei que é somente uma fase, uma parte do caminho a ser caminhado. Conquistaremos muito mais! Acredito na juventude e no potencial dos jovens, sei que, se estão no lugar certo e com as pessoas certas, fazem a diferença que querem ver no mundo. E sei que a Via Campesina tem um projeto para a juventude camponesa e é um espaço fértil para a juventude fazer militância. Como dizem é o meio social que forma o ser e a minha formação é no campo, para o campo e as pessoas do campo. Sei da importância da militância nos movimentos sociais e quero continuar firme na luta colocando meu conhecimento a serviço da classe trabalhadora, como diz a estrofe do hino “deixa-me ser jovem não me impeça de lutar, pois a vida me convida a uma missão realizar”. E eu sei da minha missão e do lado de que eu quero ficar. E você, jovem? Vem militar também, entra na roda com a gente. . . Vem!

Barra de São Francisco, ES, 18 de fevereiro de 2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sobre violência policial

Sobre violência policial

Mais uma vez, entre outras, estamos estarrecidos com as cenas de violência no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte.

Aproveito este blog para expor algumas opiniões, não com a pretensão de pontificar a verdade, mas com o intento de estimular o debate. Afinal, é através de um debate sereno, democrático e respeitoso que podemos avançar nos entendimentos sobre o tema da relação entre polícia e sociedade.

Para fins didáticos, faço minha exposição (sintética e parcial) dividindo a análise em três partes distintas: a polícia, a comunidade e os governos.

a) A polícia: todas as democracias têm instituições policiais – indispensáveis para a garantia da paz, da segurança e dos direitos de cidadania. Porém, em hipótese alguma, numa sociedade democrática, é permitido às polícias o uso da força de forma desproporcional. Em outras palavras, à polícia não é dado o direito de, salvo em casos excepcionais, usar da violência para quaisquer ações.

No início deste ano, como já comentamos neste blog, uma portaria do Ministério da Justiça e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, da Presidência da República, determinou que os agentes de segurança pública não deverão disparar armas de fogo, exceto em casos de legítima defesa própria ou de terceiro, contra perigo iminente de morte ou lesão grave. A portaria proíbe que policiais atirem numa pessoa em fuga e que esteja desarmada ou que, mesmo na posse de alguma arma, não represente risco imediato de morte ou de lesão grave a ninguém.

Tudo isso seria desnecessário se as polícias brasileiras não figurassem entre as mais violentas e arbitrárias do mundo. Pesquisas (do próprio Ministério da Justiça) sobre homicídios (no Brasil) têm apontado altos índices de letalidade da ação policial. Por essas e por outras (corrupção, violência, extorsão) podemos afirmar, com tristeza, que, no geral, segmentos de nossas polícias ainda não absorveram em suas práticas os princípios basilares do Estado Democrático e de Direito, entre as quais, a primazia e prevalência da dignidade humana. São instituições autoritárias e arbitrárias que precisam de reformas urgentes. Enquanto as instituições policiais (e de resto, muitas instituições públicas em geral) não extirparem de seus quadros todos os envolvidos com violência, morte e corrupção não teremos um estado verdadeiramente democrático. Teremos nichos democráticos dentro de instituições antidemocráticas.

b) As comunidades têm todo o direito de se manifestarem contra as arbitrariedades e abusos policiais ou quaisquer arbítrios praticados por agentes públicos. Não podem se calar, nem capitular frente ao medo. Erram somente quando usam da força e da violência, justamente para combaterem a mesma força e violência que denunciam serem vítimas.

Quando membros da comunidade destroem o patrimônio público, queimam ônibus ou depredam bens de terceiros, perdem parte da razão e, mais que isso, possibilitam que os conversadores (das polícias, da imprensa e dos governos) utilizem os velhos argumentos da criminalização da pobreza e dos movimentos sociais para justificar todo o tipo de arbitrariedade policial nas manifestações das comunidades.

A comunidade deve usar de estratégias mais eficazes para combater todos os tipos de abusos. Vejam as manifestações populares que têm derrubados governos autoritários mundo afora: mobilização, vocalização das denúncias (ocupando pacificamente espaços públicos e demandando cobertura da mídia, por exemplo) e usando desse maravilhoso recurso, ainda sem censura governamental, a internet. A comunidade deve e pode registrar as imagens de violência, postando-as em sites gratuitos, exibindo-as para a imprensa; ou seja, cortando o cordão de isolamento tradicional que impede a pobreza de se manifestar publicamente. Deve e pode, sim, ocupar os espaços públicos num grito de revolta (a garantia de manifestação é preceito constitucional). É justo e compreensível, além de legal, protestar em frente aos palácios dos governantes, dos tribunais da justiça, dos comandos das polícias, das sedes do Ministério Público, das ouvidorias, das casas legislativas. Os poderosos devem ouvir o clamor dos pobres. Quando os fatos se tornam públicos e inquestionáveis, as mudanças tornam-se inevitáveis.

c) Os governos: enquanto tivermos governantes medrosos e lenientes com a violência policial (e com a corrupção geral que campeia em vários órgãos da administração pública) não poderemos dizer que vivemos numa democracia. Isso vale para os três poderes. Não adianta apontar o dedo somente para o Executivo – que tem grande responsabilidade, principalmente com as reformas policiais. Mas quando não existem leis severas contra a corrupção e a violência institucional, toda ação pública corre o risco da discricionariedade. Então, nossos legisladores, o Judiciário, o Ministério Público – que constitucionalmente deveria controlar as polícias -, deveriam fazer sua parte para a consecução dessas reformas. Portanto, os governos podem atuar no sentido reformar nossas instituições republicanas, incluindo as polícias, para adequá-las aos tempos democráticos.

Infelizmente, o que aconteceu no Aglomerado da Serra não é exceção. Todos os dias, nas vielas das favelas e das comunidades pobres, em vários estados da federação, de variados modos, o cidadão pobre é aviltado em seus direitos básicos. Vejam na internet os inúmeros relatos de violência e abuso policial, de corrupção de agentes públicos, de afronta, por agentes do estado, aos direitos de cidadania (hoje mesmo vi uma reportagem que mostrava crianças pelo Brasil afora estudando no chão e com fome, por deficiências nos prédios escolares). É preciso que o povo ocupe as ruas para que nichos de conservadorismo e autoritarismo que impedem mudanças institucionais sejam destronados e para que, de fato (e não somente de direito) vivamos numa sociedade democrática e justa.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

De poder e de serviço - Nei Alberto Pies

De poder e de serviço

Nei Alberto Pies

“Quem procura governar os homens não o deve fazer desejando um bem para si mesmo.Um homem deve procurar governar os outros homens quando o coração lhe pede que se entregue; quando estala com dores que não são suas; quando descobriu a beleza que existe em fazer da vida um serviço”.(Paulo Geraldo)

Como seres inter-dependentes, todos precisamos e buscamos reconhecimento social. A forma como organizamos nossa vida pessoal e comunitária está impregnada de uma determinada visão de mundo. A política, como arte do bem-comum, vem perdendo terreno para outras visões onde, infelizmente, as vontades e interesses individuais prevalecem sobre os interesses coletivos. A democracia virou peça retórica. Cumpre resgatar o verdadeiro sentido da política e da democracia, sob pena de sermos tomados pelo pragmatismo egocêntrico, que nos impede de exercê-las em seu sentido mais amplo.

Muitas pessoas, ao ocuparem espaços de chefia em empresas, escolas ou em cargos públicos, são muito hábeis em construir seus projetos de poder. Para tanto, usam o expediente de “limpar a àrea”, tentando neutralizar a ação política de todos aqueles ou aquelas que ameaçam suas ações autoritárias. Outro expediente largamente utilizado é desconstituir as demais pessoas do ponto de vista pessoal e profissional, pregando sua incompetência e desqualificação. Por fim, quando julgam necessário, apelam para o expediente da humilhação, através da permanente pressão no local de trabalho ou da exposição pública dos conflitos.

Não basta ser alçado a um espaço de poder. É preciso ter legitimidade e reconhecimento dos pares para poder exercê-lo com autoridade de dirigente. É preciso também conquistar a confiança dos “dirigidos”, com base na compreensão, tolerância, respeito, ética, justiça e, sobretudo, pela coerência entre aquilo que se afirma e aquilo que se faz. A autoridade de uma pessoa sempre é medida pela legitimidade que ela construiu entre seus pares para estar aonde está.

O reconhecimento social faz parte de nossa construção de sujeitos. Como disse Paulo Freire, “ninguém nasce feito. Vamos nos fazendo aos poucos, na prática social que tomamos parte”. A educação é um espaço de construção de sujeitos, por isso mesmo a educação que se pretende democrática, cidadã e emancipatória pressupõe práticas pedagógicas que levem (ou permitem) que os sujeitos sejam os porta-vozes de sua própria história, de sua própria cidadania. Pressupõe ainda que educadores e educandos estejam permanentemente avaliando as contradições que envolvem seus modos de ser, pensar e agir.

A democracia tem de ser um exercício cotidiano e permanente nas empresas, nas repartições públicas, nas famílias, nas escolas, nos mais diferentes espaços de trabalho. A humanização dos seres humanos passa pela democratização das relações sociais a que todos estamos envolvidos, cotidianamente. Nossas relações de convivência social serão mais saudáveis quanto maior for nossa capacidade de agir democraticamente.

Em nome da dignidade, da autonomia, do respeito e do amor próprio resistimos bravamente às mais diferentes práticas de poder autoritário. Democratizar as relações sociais significa, sobretudo, qualificar a nossa condição de humanidade, através da educação. A qualidade da educação também passa pela democratização. Se assim o é, vamos combinar que ainda temos muito mais a aprender do que a ensinar.

Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

De onde vem a miséria humana?

De onde vem a miséria humana?

autor: Maurício Fabião*

Maceió, 14/02/2011.

O senso comum (e o censo governamental...) considera que a miséria é apenas uma questão de falta de dinheiro. Existem inúmeros estudos econômicos pretendendo estabelecer uma linha da miséria que se desprenda do clássico "1/4 do salário mínimo", para que a miséria de renda possa ser medida, calculada, avaliada, esquematizada, racionalizada. Mas existe uma dimensão fundamental da miséria que escapa à maioria dos estudos. De onde vem a miséria humana?

Quando pensamos em um ser humano pleno, temos em mente alguém educado, saudável, seguro, livre, com oportunidades iguais, morando adequadamente, bem remunerado, se divertindo e, sobretudo, amado e feliz. Para quase todas essas características acima, nós temos indicadores para medir. Mas como se mede a felicidade de ser amado ou a infelicidade de não ser amado? E aqui não estou falando somente do amor romântico, mas do amor social.

O amor social é uma qualidade coletiva. É a capacidade de uma comunidade de pessoas ser capaz de expressar e materializar o seu amor por seus membros, construindo um ambiente de colaboração e solidariedade. Quando digo uma comunidade de pessoas estou me referindo desde uma família à uma cidade. Existe um ditado africano que diz que para educar uma criança é preciso toda uma comunidade. Isso é amor social. Porém, com a globalização neoliberal, os laços de fraternidade que envolvem as pessoas são cada vez mais rasgados. E ao invés da simpatia dos vizinhos, temos que encarar a triste realidade de que as pessoas estão cada vez mais individualistas, mais egoístas, mais frias. Como Marx escreveu há mais de 150 anos (e não envelhece): "O capitalismo transformou todas as relações humanas em relações de troca".

A miséria humana vem da indiferença, vem do desprezo, vem da falta de solidariedade, da falta de amor. Se nós, enquanto sociedade, considerássemos um absurdo a indignidade de alguém viver em condições subhumanas, a miséria já teria acabado. Mas como naturalizamos a desigualdade, toleramos a miséria humana. A persistência da miséria no Brasil vai além da questão monetária, tem a ver com a falta de amor social, com a falta de solidariedade coletiva. É isso que devemos estimular cada vez mais.

Nos últimos anos, o país foi mobilizado em Conferências Nacionais para debater diversos temas, entre eles a educação. Está em tramitação no Congresso Nacional o novo Plano Nacional de Educação. Em nenhum dos seus artigos está relacionado o impacto da educação na redução da miséria, mesmo considerando que diversos estudos apontam para uma relação direta entre aumento da escolaridade e diminuição da extrema pobreza. Mas a educação é capaz de fazer mais do que elevar a renda.

A educação pode aumentar a cidadania, ou seja, a capacidade de ter consciência dos seus direitos, de exercê-los e lutar para que eles sejam garantidos, mantidos e ampliados. A educação é fundamental para o fim da miséria. Mas isso precisa ser feito com mais recursos (de 7% à 10% do PIB), que os Governos FHC e Lula vetaram (o primeiro por ter tido a cara-de-pau de vetar e o segundo por ter tido a cara-de-pau de manter o veto e, no final do governo, vetar os 50% do Pré-Sal para a educação). A educação de qualidade, que é aquela que reduz a miséria, não se faz só com mais dinheiro. Mas se a gente imaginar um banco sem dinheiro, a gente pode imaginar o que acontece com uma escola sem recursos adequados. E a solução está ao alcance da mão: pode vir com o Custo Aluno-Qualidade, calculado pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Vamos ver o que vingará no PNE.

Mas para finalizar a questão da miséria humana: para além das estatísticas, para além dos projetos técnicos, para além dos estudos, das palestras, dos artigos (como esse...), o que realmente importa é o ser humano e seus direitos. O Marcelo Freixo (deputado estadual pelo Rio de Janeiro) insiste muito que a questão é da dignidade humana. E considero que ele está certo: num mundo onde 2/3 são pobres, 1 bilhão passam fome, onde morrem 8 jovens por dia no estado do Rio de Janeiro por arma de fogo, onde o déficit por moradia é brutal, onde ser jovem-preto-pobre-favelado é ter uma sentença de morte estampada no peito, onde milhares de mulheres precisam de prostituir para ter como viver, onde o trabalho infantil ainda vigora, onde ainda existe trabalho escravo, onde o salário de um grande jogador de futebol equivale à renda anual de dezenas de famílias... precisamos de mais amor social. Precisamos nos sentir parte de um todo, de um coletivo, de uma comunidade, de um mundo. Um só mundo. Um mundo que seja nosso. Um mundo que seja de todos.

* Maurício França Fabião é mestre em ciências sociais pela Uerj, coordenador estadual da Campanha Nacional pelo Direito à Educação no Rio de Janeiro e diretor do Instituto Mais Cidadania.
Contatos:
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Blog:
http://mauriciofrancafabiao.blogspot.com

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

É hora de fazer alguma coisa

É hora de fazer alguma coisa

Reflexões do companheiro Fidel

Vou contar um pouco de história.

Quando os espanhóis “nos descobriram”, há cinco séculos, o número estimado da população da Ilha não ultrapassava os 200 mil habitantes, os quais viviam em equilíbrio com a natureza. Suas fontes principais de alimentos procediam dos rios, lagos e mares ricos em proteínas; adicionalmente praticavam uma agricultura rudimentar que lhes fornecia calorias, vitaminas, sais minerais e fibras.

Nalgumas regiões de Cuba ainda existia o hábito de produzir casabe, um tipo de pão elaborado com mandioca. Determinados frutos e pequenos animais silvestres complementavam sua dieta. Fabricavam alguma bebida com produtos fermentados e transmitiram à cultura mundial o costume de fumar, muito daninho para a saúde.

A população atual de Cuba é, possivelmente, 60 vezes maior do que a existente naquela altura. Embora os espanhóis se misturassem com a população autóctone, a exterminaram praticamente com o trabalho semi-escravo no campo e com a procura de ouro nas areias dos rios.

A população indígena foi substituída pela importação de africanos, capturados à força e escravizados, uma prática cruel que foi aplicada durante séculos.

De muita importância para nossa existência foram os hábitos alimentares criados. Fomos convertidos em consumidores de carne suína, bovina, ovina, leite, queijo e outros derivados; trigo aveia, cevada, arroz, grão-de-bico, feijão, ervilha e outras leguminosas procedentes de climas diferentes.

Originariamente, dispunhamos do milho, e foi introduzida a cana-de-açúcar entre as plantas mais ricas em calorias.

O café foi trazido pelos conquistadores da África; o cacau possivelmente foi trazido do México. Estes dois produtos, juntamente com o açúcar, o fumo e outros produtos tropicais, viraram enormes fontes de recursos para a metrópole, depois do levante dos escravos no Haiti, ocorrido no início do século XIX.

O sistema de produção escravista perdurou até a transferência da soberania de Cuba para os Estados Unidos pelo colonialismo espanhol que, em guerra cruenta e extraordinária, foi derrotado pelos cubanos.

Quando a Revolução triunfou, em 1959, nossa Ilha era uma verdadeira colônia ianque. Os Estados Unidos enganaram e desarmaram nosso Exército Libertador. Não se podia falar duma agricultura desenvolvida, mas sim de imensas plantações, exploradas com o trabalho manual e animal que, em geral, não utilizavam fertilizantes nem maquinarias. As grandes usinas de açúcar eram de propriedade norte-americana. Várias delas tinham mais de cem hectares de terra; outras dezenas de milhares. No total eram mais de 150 usinas açucareiras, incluídas as dos cubanos, que trabalhavam menos de quatro meses cada ano.

Os Estados Unidos receberam os fornecimentos açucareiros de Cuba nas duas grandes guerras mundiais, e tinham concedido a nosso país uma cota de venda nos seus mercados, associada a compromissos comerciais e a limitações da nossa produção agrícola, apesar de que o açúcar era, em parte, produzida por eles. Outros setores decisivos da economia, como os portos e refinarias de petróleo, eram propriedade norte-americana. Suas empresas possuiam grandes bancos, centros industriais, jazidas, cais, linhas marítimas e ferrovias, além de serviços públicos tão vitais como os elétricos e telefônicos.

Para aqueles que desejem entender não é necessário nada mais.

Apesar de que as necessidades de produção de arroz, milho, óleo, sementes e outros alimentos era importante, os Estados Unidos estabeleciam determinados limites a tudo o que concorresse com sua produção nacional, incluído o açúcar subsidiado de beterraba.

Logicamente, quanto à produção de alimentos é um fato real que dentro dos limites geográficos dum país pequeno, tropical, chuvoso e ciclônico, desprovido de maquinaria agrícola, de sistemas de barragens, de rega e do equipamento adequado, Cuba não podia dispor de recursos, nem estava em condições de concorrer com as produções mecanizadas de soja, girassol, milho, leguminosas e arroz dos Estados Unidos. Algumas delas, como o trigo e a cevada, não podiam ser produzidas em nosso país.

Certo é que a Revolução cubana não teve um minuto de paz. Apenas foi decretada a Reforma Agrária, antes de completar-se o quinto mês do triunfo revolucionário, começaram os planos e ações de sabotagem, incêndios, obstruções e emprego de meios químicos daninhos contra o país. Estes incluíram pragas contra produções vitais e, inclusive, contra a saúde humana.

Ao subestimar o nosso povo e sua decisão de lutar por seus direitos e sua independência, os EUA cometeram um erro.

É claro que nenhum de nós tinha, nesse então, a experiência atingida durante muitos anos; atuávamos a partir de ideias justas e de uma concepção revolucionária. Talvez o principal erro de idealismo cometido foi pensar que no mundo havia uma determinada quantidade de justiça e respeito ao direito dos povos quando, certamente, não existia. Contudo, disso não dependeria a decisão de lutar.

A primeira tarefa que ocupou nosso esforço foi a preparação para a luta que se aproximava.

A experiência adquirida na batalha heróica contra a tirania batistiana, é que o inimigo, qualquer que fosse sua força, não podia vencer o povo cubano.

A preparação do país para a luta virou esforço principal do povo, e nos levou a episódios tão decisivos como a batalha contra a invasão mercenária, promovida pelos Estados Unidos, em abril de 1961, desembarcada na Baía dos Porcos e escoltada pela infantaria de marinha e pela aviação ianques.

Incapaz de se resignar à independência e ao exercício dos direitos soberanos de Cuba, o governo desse país adotou a decisão de invadir nosso território. A URSS não teve absolutamente nada a ver com o triunfo da Revolução Cubana. Esta não assumiu o caráter socialista devido ao apoio da URSS, tudo o contrário: o apoio da URSS foi oferecido pelo caráter socialista da Revolução Cubana. De tal maneira que, apesar da URSS ter desaparecido, Cuba continua a ser socialista.

Por alguma via a URSS soube que Kennedy tentaria utilizar com Cuba o mesmo método que ela aplicou na Hungria. Isso levou aos erros que Jruschov cometeu, a respeito da crise dos mísseis, que fui obrigado a criticar. Mas Jruschov não só foi que errou, também Kennedy. Cuba não tinha nada a ver com a história da Hungria, nem a URSS teve nada a ver com a Revolução em Cuba. Esta foi fruto, apenas, da luta do nosso povo. Jruschov somente teve o gesto solidário de enviar armas a Cuba, quando foi ameaçada pela invasão mercenária que os Estados Unidos organizaram, treinaram, armaram e transportaram. Sem as armas enviadas a Cuba, nosso povo teria derrotado as forças mercenárias mesmo como derrotou o exército de Batista, ocupando-lhe todo o equipamento militar que possuia: 100 mil armas. Se a invasão direta dos Estados Unidos contra Cuba se tivesse produzido, nosso povo teria estado lutando até hoje contra seus soldados, que com certeza, também teriam que lutar contra milhões de latino-americanos. Os Estados Unidos teriam cometido o maior erro de sua história, e a URSS talvez ainda existiria.

Horas antes da invasão, depois do ataque arteiro a nossas bases aéreas, por aviões dos Estados Unidos que levavam bandeiras cubanas, foi declarado o caráter socialista da Revolução. O povo cubano combateu pelo socialismo, naquela batalha que ficou registrada na história como a primeira vitória contra o imperialismo na América.

Passaram dez presidentes dos Estados Unidos, está passando o undécimo, e a Revolução Socialista se mantém em pé. Também passaram todos os governos que foram cúmplices dos crimes dos Estados Unidos contra Cuba, e nossa Revolução se mantém em pé. A URSS desapareceu e a Revolução continuou adiante. Não se levou a cabo com permissão dos Estados Unidos, mas sim sob um bloqueio cruel e desapiedado; com ações terroristas que mataram ou feriram milhares de pessoas, cujos autores hoje desfrutam de total impunidade; enquanto lutadores antiterroristas cubanos são condenados à prisão perpetua; uma chamada Lei de Ajuste Cubano concede entrada, residência e emprego nos Estados Unidos. Cuba é o único país do mundo a cujos cidadãos é aplicado esse privilégio, negado aos do Haiti, depois do terremoto que matou mais de 300 mil pessoas, e ao resto dos cidadãos do hemisfério, aos que o império persegue e expulsa. Contudo, a Revolução cubana continua em pé.

Cuba é o único país do planeta que não pode ser visitado pelos cidadãos estadunidenses; mas Cuba existe e continua em pé, a só 90 milhas dos Estados Unidos, travando sua luta heróica.

Os revolucionários cubanos temos cometido erros e os seguiremos cometendo, porém jamais cometeremos o erro de ser traidores.

Jamais elegemos a ilegalidade, a mentira, a demagogia, o engano ao povo, a simulação, a hipocrisia, o oportunismo, o suborno, a ausência total de ética, os abusos de poder, inclusive o crime e as torturas nojentas, que com óbvias, embora sem dúvida meritórias exceções, têm caracterizado a conduta dos presidentes dos Estados Unidos.

Neste momento, a humanidade enfrenta problemas sérios e sem precedentes. O pior é que em grande parte as soluções dependerão dos países mais ricos e desenvolvidos, que chegarão a uma situação que realmente não estão em condições de enfrentar, sem que se derrube o mundo que estiveram tentando moldar a favor de seus interesses egoístas, e que inevitavelmente leva ao desastre.

Não estou falando de guerras, de cujos riscos e consequências já falaram pessoas sábias e brilhantes, incluídas muitas norte-americanas.

Estou falando de uma crise dos alimentos, causada por fatos econômicos e mudanças climáticas que, aparentemente, já são irreversíveis, em consequência da ação do homem mas, que de todas formas, a mente humana está no dever de enfrentar com urgência. Durante anos, que em realidade foi tempo perdido, se falou do assunto. Porém, o maior emissor de gases poluentes do mundo, Estados Unidos, se negava sistematicamente a levar em conta a opinião mundial. Deixando de lado o protocolo e outras bobagens habituais nos homens de Estado das sociedades de consumo, que quando têm acesso ao poder costumam ficar atordoados devido à influência da mídia, a realidade é que não prestaram atenção ao assunto. Um homem alcoolizado, cujos problemas eram conhecidos, e não preciso dizer o nome, impôs sua linha à comunidade internacional.

Os problemas ganharam força, agora, de súbito, mediante fenômenos que se estão repetindo em todos os continentes: muito calor, incêndios de florestas, perdas de colheitas na Rússia, com numerosas vítimas; mudança climática na China, chuvas excessivas ou secas; perdas progressivas das reservas de água no Himalaia, que ameaça a Índia, China, Paquistão e outros países; chuvas excessivas na Austrália, que alagaram quase um milhão de quilômetros quadrados; ondas de frio insólitas e fora de época na Europa, com afetações consideráveis à agricultura; secas no Canadá; ondas inusuais de frio nesse país e nos Estados Unidos; chuvas sem precedentes na Colômbia, que afetaram milhões de hectares de culturas; precipitações jamais vistas na Venezuela; catástrofes por excessivas chuvas nas megacidades do Brasil e secas no sul. Praticamente, não existe região no mundo onde estes fatos não tenham acontecido.

As produções de trigo, soja, milho, arroz e outros cereais e leguminosas, que constituem a base alimentar do mundo — cuja população atinge hoje, segundo cálculos, quase 6,9 bilhões de habitantes, já se aproxima da cifra inédita de 7 bilhões, e onde mais de 1 bilhão sofre fome e desnutrição — estão sendo afetadas seriamente pelas mudanças climáticas, criando um problema grave no mundo. Quando as reservas não foram recuperadas totalmente, ou só em parte para alguns tópicos, uma grave ameaça está criando problemas e desestabilização em numerosos estados.

Mais de 80 países, todos eles do Terceiro Mundo, com dificuldades reais, são ameaçados pela fome.

Apenas vou citar estas declarações e relatórios, de maneira sintetizada, que estão sendo publicados nos últimos dias:

“A ONU adverte do risco de uma nova crise alimentar.

“11 de janeiro de 2011 (AFP).

“Estamos perante uma situação muito tensa...”Coincidiu a FAO.

“Uns 80 países enfrentam um déficit de alimentos...”

“O índice global dos preços dos produtos agropecuários de base (cereais, carne, açúcar, oleaginosas, lacticínios) situa-se atualmente em seu nível máximo desde que a FAO começou a elaborar esse índice, há 20 anos”.

“Nações Unidas, janeiro (IPS)”.

“A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), com sede em Roma, alertou, na semana passada, que os preços mundiais do arroz, do trigo, do açúcar, da cevada e da carne (...) aumentarão significativamente em 2011...”

“Paris, 10 de janeiro (Reuters).— O presidente da França, Nicolas Sarkozy, apresentará esta semana, em Washington, sua campanha para enfrentar os altos preços globais dos alimentos...”

“Basileia, Suíça, 10 de janeiro (EFE).— O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean Claude Trichet, porta-voz dos governadores dos bancos centrais do G-10, alertou hoje sobre a o aumento do preço dos alimentos e sobre a amaeaça de inflação nas economias emergentes”.

“Banco mundial teme uma crise no preço dos alimentos, 15 de janeiro (BBC)”.

“O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, informou à BBC que a crise seria mais profunda do que a de 2008”.

“México DF, 7 de janeiro (Reuters)”.

“Em novembro, o ritmo anual da inflação dos alimentos triplicou no México, em comparação com os dois meses anteriores...”

“Washington, 18 de janeiro (EFE)”.

“Segundo um estudo realizado, a mudança climática agravaria a falta de alimentos,”.

“Há mais de 20 anos, os cientistas alertaram sobre o impacto da mudança climática, mas nada mudou, a não ser o aumento das emissões que provocam o aquecimento global”, disse à Efe Liliana Hisas, diretora executiva da filial estadunidense desta organização.

Osvaldo Canziani, Prêmio Nobel da Paz em 2007 e assessor científico do relatório, indicou que “no mundo todo serão registrados fenômenos meteorológicos e condições climáticas extremas, e o aumento da temperatura média superficial incrementará a intensidade desses fenômenos”.

“(Reuters), 18 de janeiro.— A Argélia compra trigo para evitar escassez e distúrbios”.

“A agência estatal de grãos da Argélia comprou por volta de 1 milhão de toneladas de trigo, nas últimas duas semanas, para evitar a escassez, caso houverem distúrbios”, disse à Reuters uma fonte do Ministério da Agricultura.

“(Reuters), 18 de janeiro.— O preço do trigo aumenta em Chicago, após compras da Argélia”.

“O Economista, 18 de janeiro de 2011”.

“Alerta mundial devido ao preço dos alimentos”.

“Entre as principais causas estão as enchentes e as secas provocadas pela mudança climática, o uso de alimentos para produzir combustívéis e a especulação no preço dos commodities”.

Os problemas são dramaticamente sérios. Contudo, nem tudo está perdido.

A produção atual de trigo calculada atingiu a cifra de quase 650 milhões de toneladas.

A produção de milho ultrapassa essa quantidade e se aproxima dos 770 milhões de toneladas.

A soja poderia aproximar-se dos 260 milhões, dos quais os Estados Unidos calculam 92 milhões e o Brasil, 77. São os dois maiores produtores.

De maneira geral, os dados de gramineas e leguminosas disponíveis em 2011 são conhecidos.

O primeiro assunto a resolver pela comunidade mundial seria selecionar entre alimentos e biocombustíveis. O Brasil, um país em desenvolvimento, com certeza, deveria ser compensado.

Se os milhões de toneladas de soja e milho que serão investidos em biocombustíveis fossem destinados à produção de alimentos, o aumento inusitado dos preços poderia parar, e os cientistas do mundo poderiam propôr fórmulas que, de alguma maneira, possam deter e inclusive, reverter a situação.

Perdeu-se muito tempo. É hora de fazer alguma coisa.

Fidel Castro Ruz
19 de janeiro de 2011
21h55