sábado, 12 de fevereiro de 2011

Programa Pensar a Educação, Pensar o Brasil da Rádio UFMG - Entrevista

Programa Pensar a Educação, Pensar o Brasil da Rádio UFMG em 14/02/11 20h entrevistará Dalila Andrade, Presidente da ANPED

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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Entrevista - João Zinclar

O povo ribeirinho do São Francisco traduz as lutas populares do Brasil. Entrevista especial João Zinclar

Um fotógrafo operário. Assim se define João Zinclar que já foi metalúrgico e hoje vive da fotografia. O gaúcho, que hoje vive em Campinas-SP, durante seis anos percorreu as margens do
rio São Francisco e registrou a vida deste e de quem depende dele para viver. Assim nasceu o livro O Rio São Francisco e as Águas no Sertão (Campinas: sem editora, 2010). Em entrevista à IHU On-Line, realizada por email, Zinclar conta como foi esse processo de captação das imagens e convivência com o povo da região. “Percorremos a extensão do rio, que é de 2.700 quilômetros várias vezes, perfazendo mais de 15 mil quilômetros nesses seis anos”, descreve.

Nesse tempo, Zinclar acompanhou todo o processo de
transposição do rio São Francisco, desde as discussões sobre o projeto até o início das obras. “A natureza vem sendo constantemente privatizada, transformada em mercadoria. Esse processo não é novo, faz parte da natureza do capitalismo em todos os tempos. Hoje, o controle sobre a água indica um novo patamar dessa disputa. A transposição é parte dessa apropriação privada das riquezas comuns. A água é um bem comum, não há vida sem água e hoje uma parte considerável da humanidade não tem acesso a este recurso”, afirmou. Ao longo da entrevista é possível ver algumas das imagens que Zinclar publicou em seu livro.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como foi a viagem e a produção das imagens para conhecer as águas do sertão brasileiro?

João Zinclar – O trabalho que resultou no livro O Rio São Francisco e as Águas no Sertão lançado em novembro de 2010 em Campinas-SP tem durado seis (6) anos, desde janeiro de 2005 até os dias de hoje. É motivado pela questão política envolvendo a grande polêmica e os conflitos acerca da equivocada proposta do governo federal de efetivar as obras da
transposição das águas rio São Francisco para o chamado nordeste setentrional.

Por entender a questão da água como valor de luta estratégica para os trabalhadores e o povo, (a guerra pela água em Cochabamba na Bolívia no início do século é um exemplo disso), considerei que a fotografia poderia contribuir nessa polêmica sobre o futuro das
águas do velho Chico. Ajudar na divulgação e documentação das lutas populares de resistência ao projeto de transposição, mostrar a grave situação de degradação na vida do rio, para uma compreensão melhor no principal caso real e de relevância nacional sobre conflitos em torno da defesa, do uso e controle de águas no Brasil.



Percorremos a extensão do rio, que é de 2.700 quilômetros várias vezes, perfazendo mais de 15 mil quilômetros nesses seis anos. Nesse tempo, contarei e convivi com comunidades tradicionais, quilombolas, indígenas, ribeirinhos, sem terra, pescadores, trabalhadores rurais. Assim, fotografei e documentei suas lutas para defender o rio do veneno capitalista que contamina e usurpa suas águas, com suas mineradoras, barragens e monoculturas agroexportadoras que devastam criminosamente biomas importantes para a formação do São Francisco como o cerrado e a caatinga.

Além das margens do rio, também percorremos várias regiões por onde estão sendo construídos e passando os canais da transposição. Estivemos no Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, onde procuramos mostrar e abordar o sertão de outra forma, um sertão em tom azul, azul de água, com uma quantidade enorme estocadas em grandes, médios e pequenos açudes espalhados pelo sertão, construídos ao longo do último século em nome do “combate à seca”. Aí foi possível revelar uma das principais críticas ao
projeto de transposição: a de que a obra vai chover no molhado, vai levar água para onde já tem água, água essa que, se distribuída para o povo, seria suficiente para abastecer todos os usos, desfazendo o mito da falta dela no sertão.

Quero destacar que esse processo todo só foi possível com o importante apoio nas mais variadas formas de pessoas amigas, dos movimentos sociais, sindicatos, pastorais sociais, de profissionais jornalistas, tanto de Campinas-SP, como do povo da beira do rio e no sertão. Foi a solidariedade desse povo que me ajudou a compreender realidades distantes de nosso dia a dia e também entender melhor a luta de classes no Brasil. Antes de virar livro, essas fotos percorreram várias cidades da beira do rio, de outros estados e países e serviram para ilustrar reportagens e
debates sobre o rio São Francisco.

IHU On-Line – Você é um operário fotógrafo. Que diferenças o seu olhar de "operário" ressalta sobre o povo e a vida do rio São Francisco?

João Zinclar – A fotografia é paixão antiga. Hoje consigo sobreviver dela, como free-lancer, a serviço da luta operária e popular, mas minha profissão primeira é operário metalúrgico. Trabalhei no chão de fábrica durante muitos anos, fui dirigente sindical da categoria, onde forjei minha consciência de classe e visão socialista de mundo.

Não existe neutralidade jornalística nessa história. Portanto, a visão que conduz o livro é a de uma postura classista e anticapitalista e que a luta do povo ribeirinho em
defesa de sua sobrevivência, de seu trabalho e da qualidade da água de seu rio contribui, à sua maneira, no conflito mais geral contra o capital, no campo e na cidade, resistindo à nova fase do avanço predatório do capitalismo no campo brasileiro.

A diversidade das lutas dos povos que habitam o
velho Chico, com indígenas e quilombolas enfrentando o poder econômico em disputas para retomar terras, pescadores na defesa da pesca artesanal, sem terra em luta pela reforma agrária e outras manifestações, deveria ter a devida atenção dos trabalhadores urbanos e suas organizações políticas.



IHU On-Line – O Rio São Francisco passa por um momento de conflito em função das obras da transposição. O que você viu sobre as obras? O que você ouviu do povo sobre isso?

João Zinclar – Entre 2005 e 2008, vários movimentos sociais e pessoas se colocaram contrários ao projeto. Pessoas se mobilizaram com as greves de fome de Dom Luiz Cappio, com as ocupações de barragens e dos canteiros das obras da transposição. Vários protestos foram realizados, bem como denúncias de arbitrariedades aos direitos humanos e alertas sobre os impactos ambientais para iniciar a obra. O governo triturou tudo isso e as obras iniciaram e, hoje, estão em andamento.

Algumas lutas recentes (como greves de trabalhadores das empreiteiras por melhorias salariais e reclamações contra as
péssimas condições de trabalho) produziram uma redução nos ritmos das obras. Agora, as questões se colocam de outra maneira e nem por isso são menos importantes. A desinformação sobre o projeto e os impactos negativos sobre a vida das comunidades atingidas pela transposição na região receptora das águas do velho Chico é a regra. A máquina propagandística do governo é poderosa e isso tem enorme potencial desmobilizador. Os atingidos pelas obras da transposição têm tido grandes dificuldades em se articular. Reclamam dos valores recebidos e das compensações materiais pagas pelo governo, pois anos de trabalho não se contabilizam facilmente. Muitos deixam sua história de vida e seu trabalho em troca de valores irrisórios em sua tentativa de recomeçar tudo de novo em outras localidades, atingidas pela crescente valorização das terras em torno dos canais da transposição.



Há uma insatisfação grande com o enfraquecimento das economias locais e a destruição das bases de vida de pequenos agricultores. A oferta de emprego não cumpre o prometido: são temporários e poucos. As obras afetam os povos originários, que têm na terra um referencial cultural, de vida com outros valores, que não apenas econômicos, pois a construção do eixo norte devasta terras Trukás em Cabrobró-PE, e território Anacé no Ceará, o eixo leste ameaça território sagrado dos pipipã em Pernambuco.

Além disso, o debate em torno da
revitalização do rio continua atual, uma vez que as iniciativas do governo pouco realizaram nesse aspecto, mantendo o mesmo padrão de degradação do rio que afeta duramente da qualidade de vida dos ribeirinhos. A controvérsia e a oposição ao projeto de transposição continuam, essa é uma questão mal resolvida, que terá desdobramentos futuros, sustentada na insatisfação popular, quando perceberem a contradição, além de ser a água mais cara do Brasil, ás águas da transposição não são para servir ao povo do sertão, como diz o discurso do governo.

IHU On-Line – Qual a importância de registrar o São Francisco e as águas do sertão nesse momento atual em que vivemos?

João Zinclar – Sempre que pensamos no sertão nordestino vem em nossa cabeça a imagem dramática de seca, da caatinga retorcida, de vida difícil, quase inviável. A imagem cunhada por Euclides da Cunha de que “O sertanejo é antes de tudo um forte” ilustra essa ideia. Só um forte é capaz de conviver com isso. No entanto, olhando com outra abordagem também real, existe um sertão com bastante água. A questão é que esta água é colocada majoritariamente a serviço dos interesses do capital e suas oligarquias, a água é apropriada privadamente. O atual modelo de desenvolvimento na região, com o agronegócio à frente, se apropria das riquezas naturais, de forma radical, na medida em que novas frentes de negócios vão se abrindo. Essa é a questão central, em minha opinião.

A natureza vem sendo constantemente privatizada, transformada em mercadoria. Esse processo não é novo, faz parte da natureza do capitalismo em todos os tempos. Hoje o controle sobre a água indica um novo patamar dessa disputa. A
transposição é parte dessa apropriação privada das riquezas comuns. A água é um bem comum, não há vida sem água e hoje uma parte considerável da humanidade não tem acesso a este recurso. Eu posso escolher se compro um jeans novo ou não, um livro ou um celular, mas não posso optar por não consumir água. A transposição do São Francisco, a nova polêmica em torno da construção da Usina de Belo Monte, assim como a ocupação das margens dos rios e encostas, a proteção das nascentes são temas políticos, não apenas técnico e ambiental. A luta social dos povos atingidos por esse “desenvolvimento” precisa se articular num horizonte político mais amplo, capaz de resgatar o caráter de classe desse debate. Porque são as populações pobres e os trabalhadores que mais sofrem com os efeitos desse processo.



IHU On-Line – O que suas imagens revelam sobre a Alma do Velho Chico?

João Zinclar – As imagens captadas revelam a diversidade de um povo. Expressão de um Brasil contraditório e de luta. O povo ribeirinho traduz as lutas populares no Brasil. Muitas vezes desarticuladas, essas ações estão repletas de vida e inovação. Lutas que incorporam tradições seculares, povos indígenas, a religiosidade, a luta contra a opressão num momento em que elas assumem a vanguarda numa luta pela preservação dos bens comuns, não em oposição ao desenvolvimento, mas propondo pensar as questões: Qual desenvolvimento? E pra quem? Busquei captar essa relação entre um projeto "moderno" que se apropria dos bens coletivos em nome de um único desenvolvimento possível e um mundo que se constrói, pensando na preservação dos valores coletivos sem abrir mão de avançar por melhores condições de vida.

IHU On-Line – O que o São Francisco representa para o povo que vive em seu entorno?

João Zinclar – Representa a vida em todos os sentidos, sem chavão, o São Francisco é a sobrevivência de homens e mulheres que
dependem de suas águas, contam com a potencialidade de sua biodiversidade para desenvolverem sua forma de economia independente, sua cultura de vida, amparados na pesca e na agricultura de vazante e familiar.



Fonte: Instituto Humanitas Unisinos

sábado, 22 de janeiro de 2011

Microcrédito: uma porta de saída para o Bolsa Família

Microcrédito: uma porta de saída para o Bolsa Família.

Entrevista especial com Lauro Gonzalez

O
microcrédito é um segmento financeiro que já existe há décadas, mas algo aconteceu para que, nos últimos anos, ele deslanchasse de maneira muito forte no país. Como isso aconteceu? O economista da Fundação Getúlio Vargas, Lauro Gonzalez, analisa, na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, as políticas de microcrédito existentes hoje no país, dá exemplos de projetos e critica: “os bancos tradicionais ainda se interessam pouco pelo microcrédito. Acredito que o direcionamento obrigatório dos 2% dos depósitos à vista que o governo instituiu não criou uma estrutura de incentivo adequada para deslanchar as operações”.

Lauro Gonzalez é professor de Finanças da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EAESP). É doutor em Economia pela FGV SP. Foi professor visitante no Center for Brazilian Studies da Universidade de Columbia (EUA) em 2004. Atualmente, coordena o Centro de Microfinanças da FGV.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor analisa as políticas de microcrédito atuais?

Lauro Gonzalez – Primeiro, creio que definir o que é
microcrédito seja importante. O que nós estamos chamando de microcrédito segue uma lógica que chamamos de “microcrédito produtivo” ou de “crédito para microempreendimentos”. Dentro deste segmento, acredito que o governo possui seus prós e contras. Por exemplo, os programas do Banco do Nordeste, como o Grande Amigo, precisa ser reconhecido pelo seu sucesso na expansão do crédito para os microempreendedores. É o mais importante do Brasil e o que tem tido um aumento significativo e constante ao longo dos últimos anos nesse segmento. No que diz respeito ao direcionamento de crédito, ainda questiono um pouco a eficácia, sobretudo em relação ao objetivo principal, ou seja, é a atração dos bancos, principalmente os bancos tradicionais, sobre o microcrédito.

IHU On-Line – Por que 2010 foi um ano chave para o
microcrédito no Brasil?

Lauro Gonzalez - O microcrédito tem crescido a níveis superiores da taxa de crescimento do crédito tradicional nos últimos anos. Porém, isso tem que ser relativizado pelo fato de que os dados iniciais são muito inferiores dos demais segmentos. O crescimento tem ocorrido em função de um mercado assessorado. Ainda assim, nossas estimativas aqui giram em torno de 10% do mercado comercial potencial atendido. Então, nós trabalhamos com um número de microempreendedores entre 16 e 20 milhões, adotando a ideia de que 50% deles teriam capacidade de tomar crédito efetivamente. Assim, estamos falando de cerca de 10% do mercado atual atendido.

IHU On-Line – Que condições permitiram que o microcrédito avançasse desta forma?

Lauro Gonzalez
O
avanço do microcrédito nos últimos anos foi alavancado, sobretudo, por duas instituições importantes: o primeiro é o Banco do Nordeste, que instituiu um programa de inovações. Dentre as inovações já tradicionalmente relacionadas ao microcrédito, como o agente de crédito, créditos em grupo, essa postura adotada demanda investimento e demanda uma administração que certamente envolve caminhar ao longo de uma curva de aprendizado.

Além deste, o Banco Santander, através do Banco Real, também tem um exemplar programa de inovação. Agora, o próprio crescimento da economia brasileira tem criado uma estrutura de incentivos capaz de atrair novas instituições para aumentar a oferta.

"O próprio crescimento da economia brasileira tem criado uma estrutura de incentivos capaz de atrair novas instituições para aumentar a oferta"

IHU On-Line – Por que os grandes bancos tradicionais têm se interessado pelo microcrédito?

Lauro Gonzalez – Em primeiro lugar, é importante dizer que os bancos tradicionais ainda se interessam pouco pelo microcrédito. Acredito que o direcionamento obrigatório dos 2% dos depósitos à vista que o governo instituiu não criou uma estrutura de incentivo adequada para deslanchar as operações. Os números do Banco Central mostram, ao longo de constante tempo, que os bancos preferem deixar os recursos depositados a investir no microcrédito. No entanto, creio muito na evolução e na constituição de bancos especializados nesse tipo de atividade, os bancos microfinanceiros.

IHU On-Line – Como o senhor analisa o mercado nacional para o microcrédito?

Lauro Gonzalez – As instituições tradicionais se voltam para as oportunidades de ganho. Se nós não tivermos nada contra a atuação de instituições com finalidade de lucro no microcrédito, para o mercado isso pode se tornar interessante. Isto demanda inovação por parte das instituições, demanda investimentos e, muitas vezes, as instituições analisam as diversas oportunidades de negócio, mas têm outras oportunidades que podem estar à frente do microcrédito, por exemplo. O crédito para habitação no Brasil é relativamente é pequeno e um tipo de crédito que está muito mais atrelado no que já existe nas instituições do que o microcrédito produtivo com esse conjunto de inovações.

"Se nós não tivermos nada contra a atuação de instituições com finalidade de lucro no microcrédito, para o mercado isso pode se tornar interessante"

Então, dentro da lógica do negócio, talvez haja alguns segmentos para as instituições tradicionais que venham antes. Estão abertos, mas há toda essa questão da lógica de negócio que acaba em alguns momentos colocando o microcrédito mais para o final da fila. Agora, isso cria oportunidade para instituições que queiram operar exclusivamente com os microcréditos e as microfinanças. Por isso, acredito que há uma tendência ao surgimento de instituições voltadas exclusivamente para as operações de microfinanças.

IHU On-Line – Quem utiliza o microcrédito no Brasil hoje?

Lauro Gonzalez – Geralmente, pessoas que trabalham em atividades de comércio, sobretudo comércio nas periferias e grandes centros urbanos.

IHU On-Line – O microcrédito pode ser considerado uma alternativa para combater a pobreza?

Lauro Gonzalez – Claro que sim. O microcrédito é um elemento a mais, ele não vai resolver todos os males, mas pode fazer parte de um conjunto de políticas para combater situações de extrema
pobreza. Certamente, há outros tipos de iniciativas, sobretudo políticas públicas que precisam ser implementadas. Mas dentro de um conjunto geral de combate a pobreza, sim, o microcrédito pode, inclusive, ser uma solução interessante para promover uma porta de saída ao programa Bolsa Família.

IHU On-Line – Algumas pesquisas mostram que a probabilidade de um cliente que era pobre sair da pobreza em 12 meses após utilizar o microcrédito é de 60%. De que forma políticas públicas podem incentivar o uso de microcrédito no país?

Lauro Gonzalez – Eu acredito que as políticas públicas poderiam ter uma estratégia de microcrédito que fossem acopladas às políticas de transferência de renda, como, por exemplo, o Bolsa Família. Creio que a minha sugestão principal seria instituir uma maneira de integrar as renovações do microcrédito para uma certa parcela dos beneficiários dos programas sociais e que, através disso, possa promover uma porta de entrada dessas pessoas nos mercados tradicionais.

Para ler mais:


  • quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

    Ricardo Paes de Barros - Entrevista - Ainda há muita desigualdade a reduzir

    Ainda há muita desigualdade a reduzir

    Vera Saavedra Durão Do Rio

    Formado em engenharia e com especialização em economia, Ricardo Paes de Barros, técnico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), onde já atuou como coordenador de avaliação de políticas públicas, é reconhecido internacionalmente como um especialista em pobreza. Ele considera que a presidente eleita, Dilma Rousseff, poderá reduzir ainda mais a pobreza no Brasil.

    No governo Lula, segundo o Ipea, onde Paes de Barros trabalha como técnico de planejamento e pesquisa, o número de pobres caiu de 30,4 milhões em 2003 para 17 milhões no ano passado. "A pobreza foi reduzida a mais da metade em cinco anos", avalia.

    De acordo com Paes de Barros, o Bolsa Família contribuiu com 20% para essa performance. A meta de erradicação da miséria é, na verdade, conseguir baixar cada vez mais o número de pobres, explica. "O difícil, porém, é mensurar a partir de que nível de renda se considera possível dizer que a extrema pobreza foi erradicada." Em um cálculo preliminar, Paes de Barros avalia que, se o país conseguir reduzir de quase 10 milhões para 2 milhões o número de pessoas com renda familiar per capita abaixo de US$ 1 por dia (R$ 50 ao mês), poderá se vangloriar de ter atingido tal objetivo.

    Para ele, apesar dos avanços, o Brasil continua um país extremamente desigual e a luta pela eliminação da pobreza não será vencida no curto prazo. "Somente daqui a 15 ou 20 anos, o Brasil poderá atingir níveis de pobreza na casa dos R$ 100 de renda familiar per capita, como ocorre na Turquia e na Tunísia." A seguir a entrevista de Paes de Barros.

    Valor: A presidente eleita, Dilma Rousseff, elegeu a erradicação da miséria como uma prioridade do seu governo. Isso será possível?

    Ricardo Paes de Barros: A erradicação da miséria é tão possível quanto a do analfabetismo. Porém, acabar com a pobreza é, na verdade, conseguir levá-la a níveis muito baixos. Isto, sim, é possível ser feito. A questão é saber quão baixo temos que chegar para considerar a missão cumprida.

    Valor: No caso brasileiro, teríamos que reduzir a pobreza em quanto?

    Paes de Barros: Ninguém até hoje, não só no Brasil, mas no mundo, conseguiu convencionar a partir de que nível de renda se considera possível dizer que a pobreza foi erradicada. Reduzir abaixo de quanto? O Brasil já levou a pobreza para níveis muito baixos, para linhas de pobreza mais altas a partir de 2003. A proporção da população brasileira que vive hoje em famílias com uma renda abaixo de US$ 1 por dia deve estar abaixo de 5%. Numa população de quase 200 milhões de habitantes, significa que menos de 10 milhões de pessoas têm renda diária abaixo de US$ 1 (equivalente a cerca de R$ 1,7 por dia ou cerca de R$ 50 mensais). Os mais pobres se localizam no entorno das regiões metropolitanas, na área rural e no Nordeste.

    Valor: Será possível avançar mais nesse processo?

    Paes de Barros: Daí para frente vai começar a ficar mais complicado zerar. É difícil zerar, como já disse. Mas podemos considerar como erradicada a extrema pobreza no país se esse percentual (da população que vive em famílias com renda per capita inferior a US$ 1) baixar de 5% para 1%. Vamos considerar que a meta da erradicação é 1% (2 milhões de habitantes) da população com renda per capita abaixo de US$ 1.

    Valor: Para chegar a esse patamar o que é preciso fazer?

    Paes de Barros: Se o governo quer estabelecer uma meta clara de redução da pobreza seria bom ajustar o medidor. Falo em definir uma linha oficial de pobreza e uma de extrema pobreza. Eu fecharia questão na linha de pobreza que o IBGE tem hoje. São ao todo 20 linhas diferentes que variam de Estado para Estado.

    Valor: O senhor conseguiu medir, com base nas linhas de pobreza do Ipea, em quanto foi reduzida a extrema pobreza no Brasil durante o governo Lula?

    Paes de Barros: Usando nossas linhas de pobreza, que são mais elevadas que as de US$ 1 por dia, conseguimos calcular que 8,5% da população brasileira (uns 17 milhões) vivem atualmente em extrema pobreza. Em 2003, esse percentual era de quase 17% (30,4 milhões). No período entre os anos 2003 e 2009, o percentual de pobres na população caiu abaixo da metade.

    Valor: Como o senhor avalia essa performance?

    Paes de Barros: A primeira meta do Milênio da ONU é reduzir a pobreza à metade em 25 anos. O Brasil conseguiu isso em cinco anos. Estamos caminhando nesse processo a uma velocidade de cinco vezes a meta do Milênio, o que é muito bom.

    Valor: Qual é a contribuição do programa Bolsa Família para essa queda nos níveis de pobreza?

    Paes de Barros: O Bolsa Família contribuiu com 20% .Outras políticas públicas também ajudaram a reduzir a extrema pobreza, como o Programa Nacional de Apoio à agricultura familiar (Pronaf), a interiorização da economia, a melhoria da educação.

    Valor: O aumento real do salário mínimo também contribuiu?

    Paes de Barros: O aumento do mínimo reduziu a desigualdade entre a classe média e os ricos. Não ajuda muito, no entanto, a diminuir a extrema pobreza, mas é útil para, no geral, reduzir a desigualdade. Aproxima a classe média dos ricos.

    Valor: O que o senhor considera como classe média?

    Paes de Barros: Para mim, é o pessoal que se situa no meio da distribuição de renda brasileira, entre o 4º e o 6º decil. No sentido coloquial, a classe média fica mais para cima que isso. Mas quem ganha mais de R$ 3 mil por mês no Brasil está dentro dos 10% mais ricos (classificação com base na renda do trabalho, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio do IBGE).

    Valor: Qual a melhor estratégia para erradicar a extrema pobreza no país?

    Paes de Barros: Se mantivermos a velocidade em que estamos (cinco vezes a meta do Milênio), vamos erradicar a pobreza, reduzi-la bastante. A presidente Dilma quer acelerar um pouco mais a erradicação. Há um monte de opções na mesa para fazer isso, mas não está claro quais o novo governo escolherá.

    Valor: O que o senhor considera mais urgente?

    Paes de Barros: Para mim, a prioridade máxima é incluir no programa as famílias mais pobres que ainda não são beneficiadas por eles. O Bolsa Família tem de chegar a todas as famílias realmente pobres do Brasil para reduzirmos ao máximo a extrema pobreza.

    Valor: E o que a presidente Dilma Rousseff pretende fazer?

    Paes de Barros: O que a presidente Dilma quer não é só erradicar a pobreza com o Bolsa Família e com isso dar um alívio para quem é extremamente pobre. Ela quer modificar a capacidade de geração de renda dos extremamente pobres. O Bolsa Família pode incorporar um leque de oportunidades para os pobres e elevar os benefícios dessas pessoas a outro patamar de renda.

    Valor: O que significa esse leque de oportunidades?

    Paes de Barros: Significa dar oportunidade para as pessoas se capacitarem para uma profissão, dar melhores habilidades e condições aos pobres de usar suas capacidades de maneira mais produtiva. O que inclui dar mais educação formal aos jovens e aos não tão jovens, formação profissional, formação técnica por um lado e por outro lado oferecer para as pessoas condições concretas de usarem suas capacidades, ou seja, criar oportunidades de emprego, microcrédito e apoio à comercialização de produtos.

    Valor: O Bolsa Família vai incorporar alguns desses benefícios?

    Paes de Barros: A ideia é aproveitar os beneficiários cadastrados no Bolsa Família e usar o mesmo canal para levar uma cesta de oportunidades aos mais pobres. Uns vão precisar mais de capacitação, outros de crédito. As necessidades são diversas.

    Valor: O senhor defende a criação de um exército de agentes de desenvolvimento social para trabalhar no Bolsa Família tornando o programa mais efetivo. Como atuariam os agentes?

    Paes de Barros: Os agentes (de desenvolvimento social) atuariam descobrindo um leque de oportunidades e iriam aplicá-lo de acordo com a necessidade de cada família. Eles poderiam atuar para viabilizar projetos de capacitação profissional, educação, criação de empregos, financiamento e oportunidades para as famílias ampliarem sua renda. A ideia do agente funciona.

    Valor: O senhor trabalha com um cenário de fim do Bolsa Família?

    Paes de Barros: Na minha concepção o Bolsa Família deve continuar, porque a função do programa não é acabar com a pobreza absoluta, mas reduzir desigualdades e a pobreza relativa. O Bolsa Família deve continuar e procurar elevar a renda das famílias a patamares mais altos na medida em que outras políticas forem efetivas.

    Valor: Qual é a proporção da renda dos mais pobres na população brasileira?

    Paes de Barros: O ganho dos 10% mais pobres representa um oitavo da renda média familiar per capita do país, que deve estar na casa de R$ 700. A renda per capita dos até 10% mais pobres alcança R$ 50 (no Nordeste) e R$ 80 (na média Brasil da PNAD [Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio]). Um ganho per capita razoável para as famílias mais pobres seria de no mínimo R$ 100.

    Valor: Até quando será necessário manter o Bolsa Família?

    Paes de Barros: Mesmo que a renda suba no Bolsa Família ainda há espaço para se chegar a R$ 100. E daí podemos trabalhar para elevá-la para R$ 150. Com a desigualdade que o Brasil tem, o governo não vai deixar de precisar do Bolsa Família. Sempre vai ter gente com renda muito baixa. Não creio que o Bolsa Família vá sumir daqui a 20 anos. O programa pode até perder importância, mas contar com uma rede de proteção social que garanta a renda mínima das pessoas mais pobres é sempre bom.

    Valor: Mas a situação da pobreza não melhorou nos últimos anos?

    Paes de Barros: Melhorou muito. Mas para o Brasil ficar no nível de desigualdade de países como Turquia e Tunísia, que têm uma renda média per capita das mais pobres, em patamar equivalente a R$ 100, vamos precisar de mais 15 a 20 anos. Nosso nível de desigualdade é tristemente alto.

    Valor: As Unidades de Política Pacificadora (UPPs) podem ser um instrumento de erradicação da pobreza?

    Paes de Barros: As favelas não são as áreas mais pobres do Rio. As UPPs servem mais para resolver os problemas de segurança e garantir o respeito a direitos e deveres dos cidadãos que nelas residem.

    terça-feira, 12 de outubro de 2010

    Instituto Humanas Unisinos - Entrevista com Silvio Gallo


    A educação sob os parâmetros da biopolítica: o efeito Foucault. Entrevista especial com Sílvio Gallo

    Para o professor
    Sílvio Gallo, a principal contribuição que a filosofia da diferença dá à educação é o fato de que ela compreende a “necessidade de tomar a diferença conceitualmente em si mesma e não como representação ou identidade”. Em entrevista concedida à IHU On-Line, por telefone, o filósofo sobre como as filosofias da diferença, principalmente aquelas pensadas por Deleuze, Foucault e Derrida, compreendem a educação. Sílvio fala também sobre a transição do entendimento da pedagogia como arte para tornar-se uma ciência. “Deixamos de tratar a pedagogia como um saber prático da condução do processo de aprendizado para tratar como certos regimes de verdades de conhecimentos sobre o que é uma criança, isto tendo em vista poder educá-la corretamente, garantindo os resultados que visam ser alançados”, afirma.

    Sílvio Donizete de Oliveira Gallo é graduado em Filosofia pela PUC Campinas. Possui graus de mestrado e doutorado em Educação alcançados na Universidade Estadual de Campinas, em que, atualmente, é professor pesquisador e desenvolve o projeto Filosofias da diferença e educação: suas interfaces, suas implicações, suas interferências. É autor de Subjetividade, Ideologia e Educação (Campinas: Alínea, 2009), Deleuze & a Educação (Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2008), entre outros.

    Confira a entrevista.

    IHU On-Line – Como as filosofias da diferença compreenderão a educação?

    Sílvio Gallo –
    Ainda estou num patamar muito inicial dessa compreensão. Há várias dimensões que poderíamos trabalhar para entender essa questão. O que eu tenho focado é justamente pensar o conceito de diferença pela
    perspectiva filosófica e o que isso implicaria em discussões mais contemporâneas de educação. O que venho levantando é uma crítica sobre como se faz essa discussão porque ela tem tomado a diferença como representação e não tomando a diferença como diferença em si mesma. Essa é a principal contribuição que a filosofia da diferença poderia nos dar, ou seja, a necessidade de tomar a diferença conceitualmente em si mesma e não como representação ou identidade. Nos discursos que temos visto sobre educação inclusiva, por exemplo, a diferença é tomada sempre como diferença em relação a uma identidade. Isso faz com que se apague a diferença efetiva. A pedagogia inclusiva não é uma pedagogia de afirmação da diferença, mas de apagamento da diferença.

    IHU On-Line – O que o senhor pode falar a respeito do “efeito” de Foucault na educação?

    Sílvio Gallo –
    Eu trabalho essa questão desde 2005 de forma mais articulada. O que propus, enquanto projeto, foi uma leitura do que estou chamando de filosofia da diferença na versão francesa que vai compreender, basicamente, filósofos como
    Deleuze, Foucault e Derrida. Essa filosofia tem um ponto de partida que foi posto por Nietzsche no final do século XIX, ao propor que a filosofia pense a diferença. A partir disso, temos duas vertentes básicas: uma na filosofia alemã, trabalhada principalmente por Heidegger e outra francesa, trabalhada pelos três filósofos citados anteriormente. No meu projeto sigo a vertente francesa. Nessa direção, o que fiz até agora foi, primeiramente, focar em como se dá a gênese da filosofia da diferença na filosofia de Nietzsche. Num segundo momento, me dediquei a Deleuze focando principalmente o conceito de diferença e, a partir daí, busquei elementos para compreender a educação. Quando passo a entender o conceito de filosofia da diferença a partir de Foucault, faço um estudo da obra dele centrando a discussão numa leitura dos cursos que este pensador deu.

    A ideia dessa fase do projeto é fazer uma leitura regressiva, ou seja, parti do último curso dado por Foucault em 1984 e depois fui retrocedendo. Esse curso está muito voltado para a ideia da filosofia antiga e nos conceitos de cuidado de si e parresia. Nesse momento, estou trabalhando essa etapa da produção intelectual do Foucault para buscar os aportes disso na
    educação. Desde as relações que ele mesmo faz nessas obras, percebemos que essa questão é muito intensa. Quando ele está tratando de textos gregos antigos, de como alguém cuida de si mesmo e se preocupa com dizer a verdade num processo de formação, Foucault está lidando muito diretamente com questões educacionais mais formais e até de uma formação no sentido mais geral. A ideia é tanto evidenciar esse trabalho que ele faz com relação à educação, como esses aportes que ele fez da filosofia antiga para pensar problemas contemporâneos da educação. Essa é a direção do que pretendemos desenvolver ainda nesta pesquisa.

    IHU On-Line – Que jogos de “poder e saber” foram feitos pela Pedagogia para que esta pudesse se transformar em ciência?

    Sílvio Gallo –
    Essa é uma questão complexa. Poderíamos ver, no processo de constituição da pedagogia na modernidade, um trabalho bastante curioso. Se olharmos panoramica e retrospectivamente esse período, veremos que a educação era considerada uma arte, uma ação do conhecimento de natureza prática. E o que vemos na modernidade, a partir do século XVII, é todo um procedimento de afirmação da ciência, e isso
    Foucault analisa em diversos momentos, que vai organizando nossa forma de pensar, agir e produzir conhecimento. Tudo isso teve um impacto extremamente forte na produção científica. E, assim, assistimos, na pedagogia, uma conformação a essa lógica moderna que é da produção da verdade segundo os cânones da ciência. O que vemos, no âmbito da pedagogia, é o seu desejo de se constituir como tal, o aporte que a psicologia traz para isso – aliás, a psicologia serve como a grande base da pedagogia, porque a primeira ciência mostra saber o que é a criança e como ela pode ser educada.

    Assim, deixamos de tratar a pedagogia como um saber prático da condução do processo de aprendizado para tratar como certos regimes de verdades de conhecimentos sobre o que é uma criança, isto tendo em vista poder educá-la corretamente, garantindo os resultados que visados. Por outro lado, teríamos também, e essa é uma reflexão importante que Foucault faz em Vigiar e Punir, uma discussão em torno dos jogos de poder que aí se estabelecem. É a invenção do exame que permite que a pedagogia se torne uma ciência. Agora, eu diria que, embora tenhamos todo esse processo no período moderno, e que deu certo, felizmente vemos que os estudantes e professores o tempo todo traçam linhas de fuga em relação a esse processo todo. É um processo que funciona, mas que dá possibilidades de se escapar o tempo todo também.

    IHU On-Line – Como o senhor vê a transição do poder disciplinar para o biopoder?

    Sílvio Gallo –
    Não sei se poderíamos falar em transição, porque esta dá a ideia de substituição de um por outro. E não é isso que Foucault coloca. Ele fala numa complementaridade entre essas duas técnicas de poder. Na medida em que a disciplina – entendida como um poder individualizante, que age sobre o corpo de cada indivíduo – se assenta e funciona, é que os Estados começam a operar dentro da lógica do biopoder. Tendo os indivíduos absolutamente disciplinados, conseguimos trabalhar com um poder que se exerce já não só sobre o indivíduo, mas sobre a população. Há uma complementaridade entre os dois porque o próprio biopoder só pode ser exercitado na medida em que se tem um conjunto populacional disciplinado. Desta forma, o âmbito da educação é interessante ser observado na medida em que vemos a complementação de um com o outro na atuação do poder disciplinar enquanto uma lógica de controle e de organização da instituição e uma lógica de disciplinarização dos estudantes na instituição. Não deixa de ser curioso, portanto, que cada vez mais nós ouçamos falar da preocupação da chamada classe política sobre a educação.

    IHU On-Line – Há um projeto lançado pelo MEC que prevê que não haja reprovação nos três primeiros anos escolares. Podemos dizer que essa medida do MEC é uma espécie de mecanismo de disciplinamento? A reprovação pode ser encarada como uma maneira de biopoder?

    Sílvio Gallo –
    Aqui em São Paulo temos um processo de progressão continuada instalada a mais de uma década que tem sido defendido por uns e criticado por outros. Se pensarmos com as ferramentas conceituais que Foucault nos coloca, eu diria que a
    reprovação é um efeito de um processo avaliativo que é de natureza disciplinar. Você estabelece os espaços do aprendizado, metrifica aquilo que é ensinado, avalia o quanto foi aprendido segundo esses critérios e protocolos e a criança que não atingiu aquilo que se convenciona é reprovada. Assim, a reprovação funciona no contexto da disciplina, ele é reprovado para fazê-lo aprender melhor no contexto dessa noção de aprendizado como algo que pode ser controlado. Por outro lado, a ideia da não reprovação está ligada a um jogo biopolítico, porque, na medida em que se afirma que não vai mais reprovar nas três primeiras séries ou durante todo o primeiro ciclo do ensino fundamental, é feito um jogo de planejamento do sistema educacional como um todo. E esse jogo está justamente na direção daquilo que Foucault chamou de biopolítica. No caso do Estado brasileiro, isso está muito relacionado com alcançar os índices propostos pelos organismos internacionais. Durante muito tempo, o Brasil foi criticado por ter altos índices de reprovação e de evasão escolar, então uma forma de se reduzir esses índices é através da progressão continuada. Não que isto vá fazer funcionar melhor o sistema de ensino, mas melhora esses índices apresentados aos organismos internacionais em busca de financiamentos.

    IHU On-Line – O discurso sobre a falta de qualificação do professor está presente de que forma dentro dessa ideia de biopolítica na educação?

    Sílvio Gallo –
    Sim. Você faz o discurso da falta de qualificação pelo viés de uma certa concepção de educação. Se pensamos a pedagogia como técnica, como no início da Modernidade, não faria muito sentido falarmos em qualificação do
    professor. Faz mais sentido pensar, portanto, em vocação do professor, em algo intrínseco a ele que o faz estar ou não preparado para esse ato de educar. Mas quando temos a colonização do campo da educação por esse viés cientifico é quando vamos buscar a garantia da boa atuação do professor na sua qualificação profissional. Então, ser qualificado profissionalmente, ter uma boa preparação é justamente o que garante a boa atuação. Num quadro de planejamento educacional, em termos de um estado ou de um país, que é o que chamaríamos de controle populacional que se exerce, nos termos da biopolítica, o discurso da qualificação ou não do professor entra como um dos elementos disso que podemos chamar de biopolítica da educação.

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    segunda-feira, 11 de outubro de 2010

    Comunicação não deve ser confiada aos donos da mídia

    Comunicação não deve ser confiada aos donos da mídia

    08/10/2010
    Ana Rita Marini


    FNDC

    A comunicação é uma coisa muito importante para ser confiada apenas aos “donos da mídia”, diz o jornalista Edgard Rebouças, parafraseando o colega francês George Clemanceau (em citação de 1910: “La guerre! C’est une chose trop grave pour la confier à des militaries”). Tampouco deve ficar exclusivamente nas mãos do Estado, complementa. O atual momento político/eleitoral brasileiro é de aproveitar a próxima leva de parlamentares que assumirá em 2011 para fazer um trabalho de esclarecimento quanto à necessidade de um marco regulatório para as comunicações.

    Professor da Universidade Federal do Espírito Santo, Rebouças* avalia que os radiodifusores brasileiros adotam uma estratégia equivocada ao tentarem manter “seus castelos de areia com vista eterna para o mar”. Para ele, a anomalia provocada por Sarney e Antônio Carlos Magalhães entre 1985 e 1988, com a distribuição das 1.028 concessões de rádios e TVs, está com os dias contados. “Serão engolidos mais cedo do que pensam”, prevê.

    De acordo com Rebouças, um novo marco regulatório para o setor, com características democratizantes, precisa estabelecer a criação de um Conselho Nacional de Comunicação, inclusive com instâncias regionais; a criação de observatórios de mídia no âmbito das universidades federais, envolvendo o maior número possível de atores sociais e a inclusão de conteúdos de educação para a mídia nos currículos escolares de nível fundamental. Leia a entrevista seguir.
    e-Fórum - O que representa para o País um marco regulatório para o setor das comunicações? Ele é importante? Por que?
    Edgard Rebouças - Primeiro temos que definir de que “país” estamos falando. No caso das comunicações, tenho trabalhado com quatro possibilidades bem diferentes de visões a respeito do que é bom ou deixa de ser bom para o “país”, pois tudo depende dos interesses envolvidos. Podemos, então, pontuar esta resposta sobre quatro vertentes de universos comunicacionais para o Brasil: a vertente dos empresários do setor, a dos políticos, a dos especialistas e a da sociedade – que pode ser representada aqui pela quase totalidade da população que tem acesso diário a diversos processos comunicacionais, mas que não tem a menor idéia do que estamos tratando aqui.

    No caso dos empresários do setor, acredito que um marco regulatório claro será benéfico para todos, e terão mais possibilidades de faturar do que atualmente. Já está mais do que provado que o modelo da “mão invisível do mercado” gera muito mais incertezas e crises do que bons resultados. E tais bons resultados, quando vêm, são cíclicos e em ondas cada vez mais curtas.

    Os que se posicionam contra qualquer tipo de regulação são exatamente aqueles que se mantiveram “na crista da onda” por muito tempo, e não sabem navegar entre marolas. Os radiodifusores brasileiros, por exemplo, adotam uma estratégia equivocada; querem manter seus castelos de areia com vista eterna para o mar, mas com o atual quadro de anomia que insistem em manter, serão engolidos mais cedo do que pensam. Basta ver o lucro líquido no último ano do principal grupo de mídia do país: pouco mais de R$ 1,5 bilhão. No mesmo período, só a Casas Bahia gastou em publicidade o dobro disso.

    Outro exemplo foi a decepção, por parte de muitos empresários, com a não entrada dos rios de capital estrangeiro que esperavam receber após a emenda ao artigo 222 da Constituição. Nada. Tirando o acordo da Abril com a Nasper, da África do Sul, nenhuma das grandes corporações (Warner, Disney, News, Viacom, Sony...) quis investir nos grupos brasileiros. Por qual motivo? Exatamente pela insegurança da falta de um marco regulatório.
    O interessante é observar que só exigem alguma regulamentação para defenderem seus pequenos interesses, como o caso da disputa com as telefônicas, estas sim, habituadas a operar em mercados regulados, e com o muito mais poder de fogo para, quando quiserem, convencerem os facilmente influenciáveis deputados e senadores que os radiodifusores acreditam ter do seu lado.

    E isso nos leva à segunda vertente de universo comunicacional de nosso país: a classe política. É provável que a médio prazo teremos uma geração de homens - e mulheres (!!!) – públicos que não seja mais herdeira daquela anomalia provocada por Sarney e Antônio Carlos Magalhães entre 1985 e 1988 com a distribuição das 1.028 concessões de rádios e TVs. Mesmo na legislatura que está acabando este ano, onde muitos deputados, senadores e governantes ainda são diretamente ligados a empresas de mídia, seria difícil juntar um grande número de políticos/radiodifusores que pensem em uníssono.

    O mercado (e a militância pela democratização) super valoriza a atuação desses personagens. Se observarmos bem, a maioria que resta faz parte do baixíssimo clero. O que precisamos é aproveitar esta próxima leva de parlamentares que entrará em 2011 e fazermos um trabalho de esclarecimento quanto a necessidade de um marco regulatório.

    e-Fórum - Em que consiste a terceira vertente sobre a comunicação brasileira?
    André Rebouças - A terceira visão sobre o mesmo caso é a dos especialistas e estudiosos na área, quase todos – poucos – figurinhas fáceis nas atividades em prol da democratização da comunicação e nas páginas desta publicação. O problema é que temos dificuldade de tratar destes temas até com nossos estudantes de graduação. É frustrante falar para uma turma sobre artigo 221, PNBL, Confecom, FNDC etc., se ao longo de seus 20, 20 e poucos anos de vida, nunca lhes foi apresentado um exemplar da Constituição. Nem em casa, nem na escola. O que acontece é quase que uma pregação no deserto. A não ser em fóruns como este, não há muito espaço para as propostas vindas desse grupo, mesmo que sejam altamente qualificadas. O que mais me alegra é que nenhum de nós abandona a tarefa de Sísifo que assumimos, sempre empurrando a pedra até o alto da montanha, mesmo sabendo que ela vai rolar tudo de novo.

    E o quarto ator social dessa trama é exatamente aquele que deveria ser o primeiro: o espectador/leitor/ouvinte/usuário. Mas, como historicamente seu papel foi colocado pelos demais envolvidos como o de mero receptor, fica muito difícil querer que se posicione, ou até se interesse pela questão de um marco regulatório para as comunicações.

    Tirando as poucas pessoas organizadas em torno de entidades como o FNDC, o Intervozes, a Campanha “Quem financia a baixaria é contra a cidadania” ou de alguns grupos no interior dos movimentos de mulheres, negros, homossexuais, direitos humanos e de profissionais do setor, os brasileiros não têm a menor idéia da complexidade do que estamos tratando. Mesmo que qualquer medida que venha a ser adotada tenha relação direta com seu cotidiano.

    Mas isso não é fenômeno restrito ao Brasil, sequer ao caso das comunicações. Se as pessoas não se manifestam aberta e conscientemente sobre temas tão visíveis como esgoto, educação, saúde, segurança e outras prioridades, por que irão se incomodar com o conteúdo da novela, com a baixaria no programa policialesco, com a concessão do deputado Fulano ou Sicrano, com o padrão japonês, americano ou europeu? É necessário aqui uma ação de longo prazo. Se os ambientalistas estão levando décadas para conscientizar a sociedade sobre suas pautas, qual a nossa previsão para falarmos de democratização das comunicações como se fala de aquecimento global?

    e-Fórum - Atualmente, uma comissão interministerial organizada pelo governo estuda propostas de revisão para o atual marco regulatório da comunicação brasileiro, que já tem mais de quatro décadas. Qual seria, na sua opinião, o ponto de partida para este estudo? Como pode/deve ser a parcela de contribuição da sociedade civil neste processo?
    Edgard Rebouças - A primeira medida seria a de o presidente da vez assumir que tal tema se trata de uma questão de Estado e não de governo; pouco menos para começar a ser tratado aos 44 minutos do segundo tempo.

    Outra, que não acredito em comissões de trabalho tão amplas e ligadas a tantas autoridades. Particularmente, gosto muito do modelo canadense, que tem como princípio que as propostas de políticas públicas sejam debatidas com um amplo conjunto da sociedade antes de serem levadas para a apreciação do Parlamento. Por exemplo, a primeira grande reformulação das políticas para os setores de cultura, ciências e comunicação foi encomendado ao diplomata Vincent Massey em 1949. Ele montou um grupo de especialistas e circulou por todo o país ouvindo sugestões; em dois anos em meio foram feitas 114 audiências que culminaram em 462 propostas. Quase todas se reverteram em artigos da Lei publicada em 1957. Demorou muito? Sim. Mas é dessa forma que são traçadas políticas públicas. Em 1985, quando sentiram a necessidade de mudanças na Lei, formaram outra comissão, dessa vez encabeçada por dois acadêmicos: Gerald Caplan e Florian Sauvageau. O objetivo era propor mudanças na legislação da rádio e da televisão. Ao final de dois anos, a comissão fez 165 audiências públicas, com propostas que resultaram na atual Lei de 1991.

    e-Fórum - Que questões mais específicas, neste novo marco regulatório, podem concorrer para a democratização dos meios de comunicação?
    Edgard Rebouças - São tantas questões carentes de regulação neste setor, que querer colocar tudo em uma grande Lei Geral seria um trabalho enorme e infrutífero, já que os fenômenos comunicacionais são muito mais ágeis que os processos políticos. Por isso, tenho defendido três pontos básicos:

    1. O da criação de um Conselho Nacional de Comunicação, com instâncias estaduais e municipais, a exemplo do que existe nos demais setores que dividem conosco o Titulo VIII da Constituição – Da Ordem Social –, como saúde, educação, meio ambiente, infância e juventude. Teríamos, assim, a possibilidade de ter os temas das comunicações sendo debatidos permanentemente, com o estabelecimento de políticas pontuais para cada situação.

    2. O da criação de observatórios de mídia no âmbito das universidades federais, envolvendo o maior número possível de atores sociais. Tais instâncias poderiam fazer um acompanhamento sistemático de programas, programações, conteúdos e processos comunicacionais com o objetivo de gerar propostas que se reverteriam em ganhos qualitativos para a sociedade e até ganhos financeiros para empresas do setor.

    3. O da inclusão de conteúdos de educação para a mídia nos currículos escolares de nível fundamental. Seria uma possibilidade de proporcionar às futuras gerações não apenas uma leitura dos meios, mas também uma apropriação de todas suas potencialidades para uma verdadeira sociedade da informação e do conhecimento.
    e-Fórum - É viável e/ou desejável, no novo marco, um cenário regulatório com maior controle social?
    Edgard Rebouças - O controle social é desejável, mas não acredito que possa ser feito de forma efetiva a curto prazo, exatamente pela falta de envolvimento da sociedade com as questões das comunicações. A quantidade de pessoas que conseguimos, a toque de caixa, que participassem das etapas da Confecom, já foi uma grande conquista, mas na maioria dos casos éramos nós falando para nós mesmos.

    O controle social só será possível quando a sociedade entender que não basta fazer parte do cenário comunicacional, mas que precisa tomar parte. Não é o controle remoto que dá poder ao espectador, mas sim a manifestação de sua opinião. Quem dera as conversas de bar, de corredores e de salões de beleza fossem sobre o que efetivamente está sendo (ou não) tratado na novela ou nos jornais, e não somente que Fulana vai casar com Sicrano e isso vai prejudicar a empresa de Beltrana.
    e-Fórum - Existe, noutro país, um modelo de regulamentação da comunicação sobre o qual o Brasil deva se espelhar para criar o seu?
    Edgard Rebouças - Todos os países onde as comunicações ocupam certo protagonismo na sociedade têm mecanismos de regulação, seja por meio de legislações específicas ou de instâncias reguladoras. Até a Meca do liberalismo, os Estados Unidos, tem sua Comissão Federal de Comunicação (FCC), e com muitas posturas em prol do interesse público que merecem elogios. No entanto, não será importando modelos que teremos um marco regulatório ideal para o Brasil.

    Temos que levar em conta nossas peculiaridades, analisando o que funciona ou não em situações semelhantes em outro paises, para vermos se podemos adorar aqui ou não. Como as comunicações envolvem principalmente questões culturais, não basta traduzir a letra da música para que faça sucesso. Dessa forma, um aspecto fundamental para o estabelecimentos de políticas para o setor é da garantia do máximo possível de diversidade, pluralismo e independência do mercado e do Estado.
    e-Fórum - As empresas tentam se preservar de qualquer tipo de controle social. Em paralelo, a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) anunciou a criação de um conselho de auto-regulamentação para definir regras próprias para o jornalismo. O senhor acredita que essas empresas ainda conseguirão, por muito tempo, negar as deliberações da I Conferência Nacional de Comunicação?
    Edgard Rebouças - Toda iniciativa de acompanhamento de sua prática e de seu conteúdo por parte da mídia é válida; da mesma maneira que o são a Comissão Nacional de Ética da Fenaj e as comissões dos sindicatos de jornalistas pelo país a fora. O fato de a ANJ, enfim, criar seu "Conselho de Auto-regulamentação", merece aplausos, contanto que funcione, e mesmo que o faça após quase 19 anos da criação de seu Código de Ética, em 23 de novembro de 1991.

    Será enriquecedor, porém, observar como os membros do novo conselho irão se comportar em relação aos 10 pontos listados em seus preceitos: “1. Manter sua independência. 2. Sustentar a liberdade de expressão, o funcionamento sem restrições da imprensa e o livre exercício da profissão. 3. Apurar e publicar a verdade dos fatos de interesse público, não admitindo que sobre eles prevaleçam quaisquer interesses. 4. Defender os direitos do ser humano, os valores da democracia representativa e a livre iniciativa. 5. Assegurar o acesso de seus leitores às diferentes versões dos fatos e às diversas tendências de opinião da sociedade. 6. Garantir a publicação de contestações objetivas das pessoas ou organizações acusadas, em suas páginas, de atos ilícitos ou comportamentos condenáveis. 7. Preservar o sigilo de suas fontes. 8. Respeitar o direito de cada indivíduo à sua privacidade, salvo quando esse direito constituir obstáculo à informação de interesse público. 9. Diferenciar, de forma identificável pelos leitores, material editorial e material publicitário. 10. Corrigir erros que tenham sido cometidos em suas edições”. Acredito que se for montado um conselho sério, terão um trabalho enorme.

    Há uma frase do jornalista e homem político francês George Clemanceau que ficou famosa na década de 1910, que diz o seguinte: “La guerre! C’est une chose trop grave pour la confier à des militaries”. Gosto de parafraseá-la: A comunicação é uma coisa muito importante para ser confiada apenas aos “donos” da mídia. Tampouco deve ficar exclusivamente nas mãos do Estado.

    Sobre se os empresários vão continuar ignorando os resultados Confecom, diretamente sim, pois isso é patológico. O problema maior é o Executivo e o Legislativo também continuarem ignorando. No entanto, confio que a médio e longo prazo teremos uma outra configuração do cenário comunicacional brasileiro, ainda mais porque se não acreditarmos nisso, é melhor irmos trabalhar com outra coisa.
    *José Edgard Rebouças é jornalista, mestre em Sciences de l'Information et de la Communication - Université Grenoble 3 e doutor em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, com estágio de pesquisa na Université du Québec à Montréal (2003). Atualmente é professor da Universidade Federal do Espírito Santo, coordenador do Observatório da Mídia Regional, diretor de Relações Internacionais da Intercom e editor do Global Media Journal - Brazilian Edition. Sua experiência na área de Comunicação tem ênfase em Indústrias Culturais e Políticas de Comunicação, especialmente sobre os temas televisão, jornalismo e globalização.

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    quinta-feira, 17 de junho de 2010

    Entrevista Pão e Poesia

    Ciceroneando

    O que poderia significar o enigma que cada um de nós carrega por todas as direções de nossa sina? Talvez a resposta a tal indagação venha sendo buscada incessantemente a todo o tempo. No terreno literário, por exemplo, o chamado eu lírico pode representar muito mais do que um alguém a se refugiar sob os auspícios do manto das licenças criativas. Também poderia representar uma tentativa de se escamotear a realidade, reinventado, assim, aquilo que é considerado como uma atmosfera ideal de sobrevivência das nossas tenras existências. Quiçá pudéssemos afirmar que um poeta fosse uma espécie de ficcionista postiço dos instantes que poucos conseguem vislumbrar, mesmo quando se acercasse de todas as doses evidentes de aguda lucidez. E quanto aos críticos? Será que estes, mais do que os autores, poderiam enxergar na escuridão? De qualquer modo, a equação não fecha e, por mais que nos debatamos à procura de luz, os clarões parecem apontar em direções opostas e talvez longínquas. Acostumemo-nos, pois, a crer dos nossos instantes uma infindável sucessão de mistérios. Ao artista, resta o curioso regozijo de se deparar com o incompreensível, farta matéria-prima a expelir suas imagens. Numa nova Leva que agora desponta, há o traço marcante dos recitais líricos de Henrique Pimenta, Valéria Tarelho, Antônio Araújo Jr., Juliana Amato, Tanussi Cardoso, Márcia Cardeal e Inês Lourenço. Os registros fotográficos de Thereza Coelho flagram aquilo que pulsa nos recônditos humanos. A atmosfera insone da memória povoa os contos de Regina M. A. Machado, Juliana Gola e Lílian Maial. Numa entrevista, o poeta e idealizador do projeto Pão e Poesia, Diovvani Mendonça, fala conosco sobre a sua trajetória como militante ativo dos feitos culturais. Os sentidos se abrem para as musicalidades de Antonio Loureiro e Cibelle. Nas linhas cinéfilas de Larissa Mendes, repousam outros olhares sobre a metrópole japonesa. A cada leitor, a liberdade de partilhar seus próprios signos com as expressões de então!

    *Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link Expressam Afinidades.

    http://diversos-afins.blogspot.com

    terça-feira, 1 de junho de 2010

    Entrevista

    Alcançando a marca de 45 edições, a Revista Cultural Diversos Afins oferta:

    - a poesia de Henrique Pimenta, Valéria Tarelho, Antônio Araújo Jr., Juliana Amato, Tanussi Cardoso, Márcia Cardeal e Inês Lourenço
    - um percurso através das imagens da fotógrafa Thereza Coelho
    - os contos que exaltam a sensibilidade de Regina M. A. Machado, Juliana Gola e Lílian Maial
    -
    uma entrevista com o poeta e idealizador do Projeto Pão e Poesia, Diovvani Mendonça
    - leituras cinéfilas de Larissa Mendes para o filme Mapa dos Sons de Tóquio

    Estes e outros afins em:
    http://diversos-afins.blogspot.com

    Fabrício Brandão & Leila Andrade

    segunda-feira, 12 de abril de 2010

    Entrevista: Dudu Nicácio

    Entrevista: Dudu Nicácio

    Calça social, sapato preto, blusa risca de giz. Sentado a frente de um computador, digitava com rapidez e atenção. Foi assim que encontrei
    Dudu Nicácio, no 6º andar do prédio da Faculdade de Direito da UFMG. Muito diferente do figurino que costumamos ver ele vestindo em cima dos palcos, com o Dois do Samba, ou a frente de projetos como "Choro Livre" e "Do Morro ao Asfalto". Mas é que, além de agitador cultural e músico, Dudu também é advogado. Trabalha com direitos humanos no Projeto de Extensão da UFMG Pólos de Cidadania. As roupas sérias, mesmo sob o calor de 30 graus que fazia em Belo Horizonte, não escondiam a simpatia o bom humor. Durante os quase 50 minutos a descontração marcou a conversa.

    Dudu, você é formado em Direito, como começou sua carreira artística?

    Na verdade minha carreira artística começou antes da jurídica. Eu nasci em Belo Horizonte, mas fui criado na cidade de Oliveira, que tem um cenário artístico muito grande. E desde moleque trabalho com teatro amador, depois na adolescência eu cantava em bares, mas tudo de forma amadora. Profissionalmente, eu comecei em 2002, aqui em BH. O marco do inicio da minha carreira foi quando ingressei naquele ano para o "Oficinão do Galpão", com o Chico Pelúcio. E no mesmo ano, produzi e me apresentei no projeto "Reciclo Geral", que no Reciclo. Esse projeto foi um barato, por que participaram vários compositores que estavam iniciando sua carreira naquela época. Hoje, boa parte desses artistas está se consolidando. Apresentaram, além de mim, Érica Machado, Pedro Morais, Makely Ka, que também era um dos organizadores, Mestre Jonas, Sergio Pererê, mais uma série de artistas. Era o lançamento de uma cena de artistas que estavam iniciando sua carreira. A partir dali conseguimos muita visibilidade. Então o marco para mim é esse, tanto como produtor, como artista. Já meu primeiro CD foi gravado em parceria com a cantora Leopoldina, e é um disco mais ligado as tradição da música mineira.

    E de lá para cá, quais foram os principais projetos que você participou?

    Acabei montando uma agência cultural, que chama "Ultrapássaro". Ela desenvolve inúmeros projetos, mas podemos destacar o "Choro Livre", que era um festival de chorinho nos mercados da cidade. O "Do Morro ao Asfalto", que é um circuito de samba nas favelas. E nesse projeto eu participo também como artista, com "Dois do Samba", que é quem comanda a roda. E tem outros, como o "Samba do Compositor", que desenvolvo com o Miguel dos Anjos e o Mestre Jonas. E artístico tem um monte. Já participei do Conexão Vivo, Stereoteca, esse ano lançamos o cd do "Dois do Samba" na Europa.

    A carreira jurídica, continua?

    Continua! Bom, sou formado em Direito, desde 2005, e atuo mais na área acadêmica. Eu coordeno um programa de pesquisa e extensão da UFMG, que chama Pólos de Cidadania. E paralelamente desenvolvo minha pesquisa de mestrado, também na área de Direitos Humanos, e coordeno o Fórum Mineiro de Direitos Humanos. Ih uma trabalheira danada...

    Você participa e produz o projeto de "Do morro ao asfalto" e "Samba do Compositor". O interesse pelo samba é de família?

    Eu me envolvi profissionalmente com o samba em 2006, quando já tinha até disco lançado. Mas já tenho a tradição de samba desde criança. Meu pai, lá em Oliveira coordenava uma escola de samba. Então chegava novembro, toda noite era ir para a escola de samba ver o ensaio, ver montar carro alegórico. Quando eu mudei para Belo Horizonte, fui morar no Caiçara, e lá tem o "Opção". Era muito perto da minha casa, então ia para lá toda semana, e o "seu Ronaldo" me deixavaeu tocar. Ai eu aprendia muita coisa, conhecia os sambistas da cidade. Só mais tarde, na época do lançamento do meu primeiro disco, com a Leopoldina, eu passei a compor samba, com meu parceiro, hoje do "Dois no Samba", Rodrigo Braga. Depois vieram outros parceiros, e os projetos que passei a desenvolver também tinha muito de samba. Apesar de não ser só de samba.

    "Do morro ao asfalto", "Choro Livre", você busca em seus projetos um resgate da música brasileira. Para você, ainda falta valorização e resgate em Belo Horizonte?

    Acho que esta cada vez mais acontecendo, e vejo uma forma muito positiva de como acontece. Por exemplo, o "Samba do Compositor" o que a gente mais visa é consolidar uma cena de sambistas no estado. Minas sempre forneceu sambistas, mas essas pessoas nunca foram identificadas como mineiras. Assim como existe em São Paulo, todos falam no samba paulista, no Rio, na Bahia, com seu samba mais mole, mais cadenciado. A nossa tarefa é desenvolver essa cena. O projeto surgiu em 2006 e a partir dele inúmeros outras iniciativas já surgiram na cidade e no estado, nessa mesma direção de consolidação do samba. E por outro lado, que o público também está ligado a esse samba. No chorinho a mesma coisa, há muito tempo que vem surgindo muitas rodas de chorinho na cidade, e agora todos esses artistas estão conseguindo visibilidade, a gravar seus discos.

    Mas, para você, como está o cenário cultural de BH hoje?

    Por um lado, tem crescido muito a profissionalização dos artistas mineiros. Acho que as leis de incentivo contribuem muito para isso, e esse é um lado positivo da lei. Então tem uma oferta grande para o público. Até mesmo os projetos com entrada franca. Como as leis têm ajudado, a maioria dos projetos tem entrada franca. Mas, quando não tem a lei, você tem que sustentar o evento, aí tem que cobrar. Então acaba que muitas vezes esses os projetos que não tem incentivo são prejudicados. Hoje a gente tem que a entrada não seja somente franca, ela possa ter o reconhecimento do valor daquele projeto. Pedimos doação de alimentos, de um brinquedo. Mas que a pessoa tenha algum esforço para que ela usufrua daquela cultura que está sendo mostrada. Senão acaba sendo um sistema autoritário, quem está com o dinheiro da lei consegue fazer, consegue ter entrada franca, e consegue ter público. Quem está do outro lado, não consegue fazer, tem que cobrar um pouquinho e não tem público. Existe esse dilema, e a gente tem que ficar atento. A pessoa tem que na verdade é avaliar, o que vale a pena pagar um pouquinho mais.


    E em que somos referência?

    Todos os lugares produzem arte, então em termos de produção artística é difícil de fazer esse julgamento. Ainda mais no Brasil, que tem uma criação artística muito grande. O que eu vejo é que a gente aqui tem conseguido articular mais espaços, e a classe artística tem conseguido trabalhar mais organizada. E assim conseguido cobrar mais do governo, e isso possibilita um maior acesso aos recursos públicos, de forma honesta, de forma democrática. E isso tem ajudado muito os artistas independentes. Então eu acho que isso tem sido um diferencial em relação aos outros estados. As leis aqui, por mais que tenha que melhorar, que implantar outras políticas publicas, mas isso eu percebo que contribui mais. Funciona, por exemplo, muito melhor que do Rio de Janeiro. Um artista independente, em inicio de carreira lá, passa um cortado muito maior que aqui. Lá o artista ou é global, ou tem que lamber muita noite até se destacar. Aqui você tem conseguido fazer intermédios, que já dão uma dinamizada na vida do artista.

    Você tem destacado a Lei de Incentivo a Cultura, acha que seria possível produzir sem ela?

    A lei tem que ser um apoio, não um fundamento: "se eu não tiver lei eu não faço". Por exemplo, eu tenho dois discos gravados, e ambos eu fiz com recursos próprios, só depois consegui recurso para o lançamento. È muito mais difícil, é muito mais duro, literalmente né, já que você tem que tirar dinheiro quase sempre de onde não tem. Mas isso não pode ser limite da pessoa fazer ou não fazer.

    E qual outra política pública é essencial para o fomento da cultura na cidade?

    Cada vez mais tem se pensado que você não pode transmitir a responsabilidade do estado, de uma fundação publica de cultura popular.

    sexta-feira, 5 de março de 2010

    Quem vai ser o professor do futuro?

    Quem vai ser o professor do futuro? Entrevista especial com Regina Maria Michelotto

    Uma pesquisa lançada pela Fundação Carlos Chagas revelou que somente
    2% dos jovens brasileiros se interessam em atuar profissionalmente como professores. Um dado que revela a desvalorização e a perda de interesse por essa carreira. “Há que se considerar que a lacuna deixada pela classe média ou média/alta foi sendo, aos poucos, preenchida pelas classes populares na profissão de professor. Isso representa um problema, mas também um ganho para a escola pública. Problema no sentido de que a esses candidatos falta acesso a livros, museus, concertos, viagens, palestras, debates, contato com pessoas familiarizadas com a cultura letrada desde o lar. Essa falta redunda em pouca base para os estudos, o que traz grandes dificuldades. O ganho se apresenta no fato de que tais professores, atuando nas escolas públicas do ensino fundamental e médio, têm maior conhecimento das condições de vida da clientela que as frequenta”, disse a professora Regina Maria Michelotto, durante a entrevista que concedeu à IHU On-Line, por e-mail.

    Ela revela pontos cruciais sobre essa questão que explicam as consequências para a área educacional, no futuro, em função da baixa procura pela licenciatura, e analisa, também, os principais desafios que a educação enfrenta neste novo século. “Buscar uma profissão apenas com base no mercado de trabalho é esquecer que é muito bom trabalhar naquilo que nos dá satisfação e prazer, em algo que nos faz sentir úteis e dignos” opinou.

    Regina Maria Michelotto é graduada em pedagogia pela Universidade Federal do Paraná, onde fez também o mestrado em educação. É doutora em educação pela Università degli Studi di Padova (Itália) e pela Universidade Federal de São Carlos. Atualmente, é professora da UFPR.

    Confira a entrevista.

    IHU On-Line –
    Segundo uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas, apenas 2% dos jovens brasileiros se dizem interessados em seguir a carreira de professor. Como entender a perda de interesse pela profissão?


    Regina Maria Michelotto –
    A partir da
    segunda metade do século XX, a profissão de professor foi sendo, pouco a pouco, desvalorizada: os salários foram baixando, e as condições de trabalho piorando. As causas foram políticas públicas de contenção de gastos sociais que levaram ao desrespeito do índice de recursos destinados à educação. Ao mesmo tempo, um grande leque de alternativas de profissionalização em nível superior se apresentava aos jovens de classe média ou alta, que costumeiramente se endereçariam a essa área.

    Por outro lado, a partir das décadas de 1980 e 1990, a ênfase no mercado de trabalho para a escolha da profissão foi substituindo o conteúdo humanista que antes representava um estímulo aos indivíduos para se tornarem professores. A regra era (e é) atender ao que o mercado está valorizando. Outro dado desse contexto é a privatização dos cursos de formação de professores. Sendo mais fáceis de instalar, foram escolhidos por instituições de caráter mercantil, com pouca responsabilidade com a qualidade.

    Há que se considerar que a lacuna deixada pela classe média ou média/alta foi sendo, aos poucos, preenchida pelas classes populares na profissão de professor. Isso representa um problema, mas também um ganho para a escola pública. Problema no sentido de que a esses candidatos falta acesso a livros, museus, concertos, viagens, palestras, debates, contato com pessoas familiarizadas com a cultura letrada desde o lar. Essa falta redunda em pouca base para os estudos, o que traz grandes dificuldades. O ganho se apresenta no fato de que tais professores, atuando nas escolas públicas do ensino fundamental e médio, têm maior conhecimento das condições de vida da clientela que as frequenta, podendo aproximar o trabalho docente da realidade desses alunos - o que é muito importante - com maior facilidade.

    Para quem leciona nos cursos de formação de professores que podem ser considerados sérios, apresenta-se um
    grande desafio que é o de trabalhar conhecimentos fundamentais à função de professor, com estudantes que chegam com pouca base.

    IHU On-Line – Quais as consequências para o futuro da educação da pouca procura pela carreira hoje?


    Regina Maria Michelotto –
    Índices cada vez mais baixos, qualidade muitas vezes duvidosa, principalmente para os alunos das escolas públicas.

    IHU On-Line – A senhora poderia fazer uma retrospectiva histórica do papel do professor na sociedade brasileira desde o início do século XX até os dias atuais?

    Regina Maria Michelotto – Ser
    professor já foi motivo de orgulho e dignidade. Vários movimentos influenciaram nessa formação. No início da década de 1920, os movimentos de base e a criação de partidos de esquerda imprimiram na educação brasileira um cunho político de “direito de todos”. Já no final da mesma década, as discussões sobre educação se desenvolveram menos voltadas a questões políticas e mais a pedagógicas. Foi um importante movimento que produziu o “manifesto dos educadores da educação nova”, cujos signatários tinham nomes bem conhecidos dentro da área, como Anísio Teixeira, Lourenço Filho, Fernando de Azevedo etc.

    No contexto pós-guerra, década de 1950 e início da de 1960, novamente a educação e a cultura se viram politizadas por meio de campanhas de alfabetização, teatro para o povo, movimentos estudantis pela democratização da universidade... Tudo isso foi cortado a partir de 1964, quando os rumos da educação tomaram conotação tecnicista por influência estadunidense, em acordos com o governo militar. Nessa época, inicia a privatização da educação superior no Brasil, que foi incrementada intensamente nos governos FHC.

    Estamos, agora, assistindo e participando de um grande movimento voltado à escola pública, do qual faz parte a expansão atual das universidades. Resta, porém, a garantia da qualidade, para que essa expansão não se dê apenas numericamente.

    IHU On-Line – Quais os maiores entraves e desafios para a educação no Brasil hoje?

    Regina Maria Michelotto – A falta de
    valorização da carreira do professor. Um profissional sobrecarregado, obrigado a agregar atuação em três horários diários para poder conseguir um situação digna, nunca conseguirá se sair bem em seu trabalho.

    IHU On-Line – Quais os caminhos para resolver o problema da desmotivação dos professores em função da postura dos alunos em sala de aula?

    Regina Maria Michelotto – O professor que trabalha com um número razoável de alunos, em torno de 20, consegue conhecê-los, atendê-los e incentivá-los. Isso é impossível quando se tem de 40 a 50 em uma sala, e se trabalha em dois ou três turnos, em escolas diferentes. Assim, é necessário aumentar muito o número de escolas e de professores, além de proporcionar as condições necessárias a um
    trabalho docente voltado para o ótimo.

    IHU On-Line – Considerando um cenário de crise na educação, quais os efeitos que isso pode acarretar no mercado de trabalho e no problema do desemprego?

    Regina Maria Michelotto – O mercado de trabalho é variável e volátil. Não se pode apoiar o desenrolar de uma vida profissional apenas nisso. Há que pensar que se trata de pessoas, da vida das pessoas.

    Buscar uma profissão apenas com base no
    mercado de trabalho é esquecer que é muito bom trabalhar naquilo que nos dá satisfação e prazer, em algo que nos faz sentir úteis e dignos.

    IHU On-Line – Como entender que apenas 16% dos jovens brasileiros têm ensino médio completo? Que mercado de trabalho está se configurando a partir desta realidade?

    Regina Maria Michelotto – Vivemos em uma sociedade desigual. O
    produto do trabalho não chega da mesma forma para todos. Pelo contrário, é endereçado apenas a alguns. Não é de estranhar que, numa sociedade tão mal organizada, essa porcentagem seja uma realidade.

    IHU On-Line – O que esperar da sociedade do futuro ao considerarmos que muitos jovens optam pelos cursos técnicos (que muitas vezes oferecem mais vagas no mercado de trabalho) ao invés da formação universitária, abrindo mão de uma formação mais humanística e teoricamente embasada?

    Regina Maria Michelotto – O mercado é que está direcionando as escolhas. Mas os filhos das classes mais abonadas dificilmente optam por cursos apenas técnicos ou só práticos.

    quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

    Alimentos bons, limpos e justos. Entrevista com Carlo Petrini

    Alimentos bons, limpos e justos. Entrevista com Carlo Petrini

    Na opinião de Carlo Petrini vivemos um momento de crise econômica, energética e agrícola e o futuro da alimentação exige mudanças nos hábitos de consumo pois a maior parte dos danos que a nossa terra sofreu até agora se deve à produção de alimentos.

    O poder que o consumidor possui simplesmente pelo fato de escolher diariamente o próprio alimento é inacreditável: exercitá-lo com consciência e responsabilidade e um dever, um ato de civilidade, em relação a si próprios, às próprias famílias, às próprias comunidades e aos próprios povos”; afirma Carlo Petrini, presidente do movimento Slow Food.

    Na entrevista abaixo, ele considera que "estamos vivendo tempos muito difíceis" e que "é necessário redefinir todo o sistema atual, baseado no consumo”: Afirma ainda que "o bom, o limpo e o justo são os três adjetivos que definem em modo elementar as características que deve ter um alimento para responder a exigências de nós, ecogastrônomos" e que a principal via pela qual realiza "um percurso em relação ao bom, Iimpo e justo é aquela da economia para o re-posicionamento dos consumos e das produções agrícolas”.

    Carlo Petrini é italiano, estudou sociologia na Universidade de Trento e logo se envolveu com a política local e com o trabalho associativo. Entre suas muitas criações está a Universidade de Ciências Gastronômicas, em Pollenzo e Colorno, a primeira instituição acadêmica a oferecer um acesso multidisciplinar nos estudos da alimentação; e ele também que está por trás do Terra Madre, fabuloso encontro de 5.000 produtores de todo o mundo, ocorrido em Turim, para discutir problemas comuns e suas possíveis soluções.

    O seu último trabalho Buono, Pulito e Giusto. Principi di uma Nuova Gastronomia (Bom, Limpo e Justo. Princípio de uma Nova Gastronomia) foi publicado em 2005 pela editora Einaudi e em 2009 foi traduzido para o português pela Editora SENAC de São Paulo (Brasil) com o título "Slow Food, princípios da nova gastronomia”. No livro, Petrini descreve o desenvolvimento da teoria da "ecogastronomia". O livro também foi traduzido para o inglês, francês, espanhol, alemão e polonês. Em 2001, seu Iivro Le ragioni del gusto (As razões do gosto) foi publicado pela Laterza e em 2003 foi traduzido para o inglês como The Case for Taste pela Columbia University Press. Em janeiro de 2008 foi o único italiano a aparecer na Iista das '50 People Who Could Save the World' (50 pessoas que poderiam salvar a mundo) realizada pelo prestigiado jornal Inglês The Guardian.

    A entrevista é da revista Camponesa. Revista da Associação de Apoio às Comunidades do Campo do Rio Grande do Norte - AACC/RN, ano 1, no. 1, novembro de 2009.

    Eis a entrevista.

    0 que é o movimento Slow Food? Como surgiu?

    Na metade dos anos 80, o frenesi consumista tinha invadido totalmente a Itália, de tal forma que se estava perdendo o contato com a terra, as tradições, as próprias receitas, em poucas palavras, as raízes da identidade de cada um de nós. Quisemos iniciar da mesa, do alimento não visto simplesmente como nutrimento, mas como elemento de prazer decorrente da possibilidade de apreciar as diversas recei¬tas e sabores, reconhecer as variedades dos locais de produção e dos artesãos, respeitar os ritmos das estações e a convivência. Hoje estamos convencidos da necessidade de associar um novo sentido de sensibilidade ao prazer e à reivindicação do direito de todos a beneficiar-se deste prazer: uma atitude que chamamos de ecogastronomia, capaz de unir o respeito e o estudo da cultura enogastronômica sustentando aqueles que atuam em todo o mundo para defender a biodiversidade agroalimentar. Partimos de 1986 do Piemonte, na Itália, para nos tornarmos em 1989 uma associação internacional que conta hoje com 100 mil sócios em 130 países.

    Como tem sido a aceitação no Brasil e, ern particular, no Nordeste?

    O Brasil - um pais que possui uma extraordinária biodiversidade agrícola, gastronômica, cultural e lingüística - há diversos anos tornou-se um interlocutor fundamental do Slow Food. Em 2003 o Prêmio Slow Food para a Biodiversidade foi concedido à tribo indígena Krahô, na Amazônia nasceu uma das primeiras Fortalezas internacionais (o Guaraná Nativo dos Sateré-Mawé) e em 2004 o Ministério do Desenvolvimento Agrário do Brasil assinou um acordo que oficializou uma longa relação de amizade e colaboração. Mas o grande desafio do Slow Food no Brasil é a mobilização de todos os setores da sociedade, e temos conseguido superar este desafio com a criação de novos Convivia, os núcleos locais de sócios, e o envolvimento cada vez maior de chefs, jovens e acadêmicos que juntos poderão permitir a inserção do pequeno produtor na própria comunidade. Hoje temos no Brasil cerca de 600 sócios e este numero vem crescendo exponen¬cialmente. No Nordeste, temos importantes projetos para a defesa da sua biodiversidade ambiental e cultural, como a Fortalezas do Arroz Vermelho do Vale do Piancó na Paraíba e do Umbu no sertão baiano. Chefs de Fortaleza e Salvador estão se unindo a acadêmicos do Maranhão e sócios espalhados ao longo de estados do Nordeste brasileiro promovendo uma área com uma riqueza ainda pouco reconhecida e valorizada.

    Na visão do movimento Slow Food, qual o futuro da alimentação?

    Estamos vivendo tempos muito difíceis, a crise que estamos atravessando é ao mesmo tempo econômica, energética e agrícola. Não podemos considerá-la e enfrentá-la como se fosse um momento de passagem. E necessário redefinir todo o sistema atual, baseado no consumo. É muito recente a notícia do Global Footprint Network1 de que o overshoot day2 aconteceu no dia 25 setembro, ou seja, o dia que teremos terminado de consumir as reservas que a natureza nos disponibilizou para o ano em curso. A cada ano, o dia no qual entramos em débito ecológico e de excesso de consumo antecipa-se no calendário. Em 1986, ano do primeiro alarme, o overshoot aconteceu em 31 de dezembro. Em 1995 a falência ecológica aconteceu no dia 21 de novembro. Dez anos depois as contas com a natureza entraram no vermelho já no dia 2 de outubro. Agora retrocedemos ate o dia 25 de setembro: consumimos 40% a mais do que a terra pode gerar. Em 2050, se a crise energética não nos tiver obrigado a adotar a sabedoria ecológica para manter as contas em paridade, teremos necessidade de um planeta gêmeo para usar como supermercado e retirar as matérias-primas, água, florestas e energia.

    Se pensarmos ainda que a maior parte dos danos que a nossa terra sofreu ate agora se deve à produção de alimento, como se nota no relatório da ONU Millennium Ecosystem Assesment3, entendemos que a forma como nos relacionamos com a gastronomia e central para o nosso futuro.

    Comer torna-se um "ato agrário”, e selecionando alimentos de boa qualidade, produtos com critérios de respeito pelo ambiente e pelas tradições locais, podemos favorecer a biodiversidade e uma agricultura igualitária e sustentável. Bom, Iimpo e justo são os três adjetivos que definem em modo elementar as características que deve ter um alimento para responder às exigências de nós, eco-gastrônomos. Bom, relaciona-se com as sensações de prazer derivadas das qualidades sensoriais de um alimento, mas também à complexa esfera de sentimentos, recorda¬ções e aspectos determinantes de identidade, decorrentes do valor afetivo do alimento; limpo, ou seja, produzido sem estressar a terra, respeitando os ecossistemas e o ambiente; justo, que quer dizer conforme com os conceitos de justiça social nos ambientes de produção e de comercialização.

    Como se vinculam os conceitos de soberania alimentar e economia solidaria? De que forma o movimento Slow Food se relaciona com eles?

    A principal via pela qual realizar um percurso em relação ao bom, limpo e justo é aquela da economia para o re-posicionamento dos consumos e das produções agrícolas. A economia de mercado, assim como a conhecemos e como está organizada graças também às dinâmicas da globalização, está revelando enormes limites econômicos. Seja do ponto de vista da sustentabilidade das suas atividades, seja por seu modo de gerar riqueza. Os seus maiores expoentes são conscientes que "anti-ecologia" começa evidenciar-se cada vez mais como uma "anti-economia”.

    Em um quadro deste tipo - cujas causas devem ser identificadas também nas mudanças que sofreram o sistema agrícola mundial, na industrialização, na centralização dos sistemas produtivos agroalimentares - as comunidades do alimento representam um exemplo brilhante do que poderia significar pronunciar as palavras "economia local" ou "economia da natureza".

    Trata-se de pequenos produtores, criadores, pescadores, coletores de produtos silvestres, artesãos do mundo agroalimentar que a cada dois anos apresentam os seus trabalhos em nível local na grande sede mundial de Terra Madre4, em Turim (
    www.terramadre.org). As comunidades do alimento geralmente atual na cadeia curta, ou em cadeias longas altamente sustentáveis e baseadas no conhecimento recíproco dos envolvidos. A comunidade é o local, o contexto, no qual pode-se realizar o conceito de "adaptação local" que teorizou Wendell Berry. É necessário pressionar o quanto for possível para re-posicionar produções e consumos, vida social e tradições sem renunciar ao comércio e à troca que nos garantem a rede, mas fortalecendo as comunidades locais e as suas características de funcionamento.

    Qual o papel do consumidor na promoção de uma cultura do gosto e da convivência?

    A esfera sensorial do homem contemporâneo claramente empobreceu. O tato, o gosto e o odor sofreram uma profunda regressão. O tempo cada vez mais escasso e a velocidade das nossas vidas nos estão privan¬do dos instrumentos que nos podem consentir um conhecimento mais profundo, variado e autêntico do mundo que está à nossa volta. Por isso, treinar novamente os nossos sentidos e aguçar a percepção, são os principais instrumentos que pequenos e grandes consumidores devem possuir para se re-apropriar da própria capacidade de decidir com qual ali¬mento nutrir-se. Destas considerações, nasce o projeto de Educação do Gosto, destinado a educar as crianças para desenvolver a sensorialidade, fazendo-as compreender a importância dos produtos alimentares como parte integrante da cultura das sociedades.

    Com relação ao grande público, a melhor ideia foi sem dúvida a dos Laboratórios do Gosto, que recolhem exigências do consumidor contemporâneo: o desejo do contato direto, da prova em uma degustação guiada, enfim, a recuperação da sensorialidade; a aproximação do alimento como diversão e ato gratificante mais do que necessidade ou obrigação nutricional; o suprimento da curiosidade em relação aos alimentos, às vezes rara e preciosa, unido à gratificação intelectual de conhecer a história e a particularidade.

    Para garantir alimentos bons, limpos e justos, o consumidor deve começar a se sentir co-produtor. O tempo do consumidor terminou: ele literalmente consome o mundo e é figura chave da sociedade baseada na economia de mercado resultando, para sua infelicidade, em ser o cúmplice principal do massacre que a terra esta sofrendo. Educando-nos, conhecendo os produtos, os próprios produtores, as técnicas para alimentar-se melhor e poluir menos, o co-produtor, inserido em sua comunidade, torna-se concretamente e individualmente o motor de uma verdadeira mudança. O poder que o consumidor possui simplesmente pelo fato de escolher diariamente o próprio alimento e inacreditável: exercitá-lo com consciência e responsabilidade é um dever, um ato de civilidade, em relação a si próprios, às próprias famílias, às próprias comunidades e aos próprios povos.

    Há quem diga que as raízes da fome e da desnutrição no Brasil associam-se a duas dimensões interdependentes de uma mesma crise de nosso modelo de desenvolvimento: baixo poder aquisitivo da população e insuficiência de produção de alimentos para o consumo interno. À luz da experiência do movimento Slow Food, como enfrentar essas questões?

    O respeito pelo meio ambiente, a tutela dos territórios, a pureza das águas, a defesa das variedades vegetais e das raças animais estão na base do nosso futuro-produtivo se quisermos frear as mudanças climáticas. As notícias que nos chegam são, no entanto muito mais preocupantes e, sobretudo, relacionam-se menos com este simples compartimento mas com a modalidade abrangente de produção e de fluidez das reservas. Deve-se então não reiniciar como se nada acontecesse, não insistir no relançamento de consumos que não podem ser a solução para esta crise. É necessário repensar o modelo de produção que todos nós escolhemos e que acreditamos ser único e indiscutível e ter a coragem de confiar novamente nas economias de pequena escala, as únicas em condição de dar uma resposta eficaz e radical à situação atual, as únicas em condição de serem auto-suficientes porque mantêm uma estreita relação com a própria terra, as próprias tradições, os próprios alimentos.

    Como as pessoas podem participar do movimento Slow Food?

    Slow Food é uma associação, então o primeiro passo é tornar-se sócio, desta forma cada um pode participar das iniciativas do próprio Convivium, os grupos locais nos quais a associação está organizada em todo o mundo. Conferências, laboratórios, degustações, atividades de educação do gosto para crianças e adultos e, sobretudo a possibilidade de ir a fundo nos argumentos ligados ao alimento ''que hoje se encontram nos discursos de todo o mundo mas somente em nível superficial, sem aprofundamento. No entanto, o movimento de ideias que lançamos não se limita somente à estrutura associativa, com Terra Madre nasceu uma rede mundial de pessoas que valorizam a diversidade do nosso planeta e que atuam para preservá-lo, para nós e para as gerações futuras. No dia 10 de dezembro (de 2009), para celebrar os 20 anos do nascimento do Slow Food, uma grande jornada de mobilização acontecerá em todo o mundo envolvendo sócios e Iíderes de todos os convivia, pequenos produtores, criadores e pescadores de todas as comunidades do alimento e das Fortalezas, professores e estudantes de hortas escolares. Cada um poderá promover o tema central da filosofia do Slow Food: o acesso a um alimento bom, limpo e justo; a biodiversidade; a produção em pequena escala; a so¬berania alimentar; o conhecimento das Iínguas, das culturas e das tradições; a produção que respeita o meio ambiente; o comércio équo e sustentável. Em programa haverá pequenos encontros e grandes eventos: degustações e jantares, filmes e concertos que ressaltam a im¬portância de um alimento bom, limpo e justo; visita a produtores de Terra Madre, campanhas de sensibilização, atividades de educação ali¬mentar e do gosto; encontros entre produtores, cozinheiros, jovens e outros.

    Notas:
    1. A Global Footprint Network foi criada em 2003 e dedica-se a estimular o surgimento de um mundo no qual todas as pessoas tenham oportunidade de viver satisfeitas, dentro das possibilidades da capacidade ecológica da Terra. É responsável pela “Pegada Ecológica”, que mede o grau em que as demandas ecológicas das economias humanas respeitam ou ultrapassam a capacidade da biosfera de fornecer bens e serviços.
    2. Uma semana após o estouro da bolha econômico-financeira no dia 23 de setembro, ocorreu o assim chamado Earth Overshoot Day, quer dizer, “o dia da ultrapassagem da Terra". Grandes institutos que acompanham sistematicamente o estado da Terra anunciaram: a partir deste dia o consumo da humanidade, em 2008, ultrapassou em 40% a capacidade de suporte e regeneração do sistema-Terra. Ou seja, a humanidade esta consumindo um planeta inteiro e mais 40% dele que não existe.
    3. O Millennium Ecosystem Assessment (Avaliação do Milênio de Ecossistemas, MA) foi pensado para fornecer parte da informação científica necessária para a implementação da Convenção da Diversidade Biológica, da Concenção do Combate à Desertificação e da Convenção das Áreas Húmidas. O MA foi lançado a nível mundial pelo Secretário Geral das Nações Unidas em Junho de 2001. É uma avaliação multi-escala, consistindo em avaliações interligadas aos níveis global, sub-global e local. Existem cerca de 15 avaliações sub-globais aprovadas, entre as quais as da Noruega, do Sul de África, da America Central e da China. A Avaliação Portuguesa foi iniciada em Maio passado e irá decorrer até meados de 2005. É liderada pelo Centro de Biologia Ambiental da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).
    4. A rede Terra Madre é constituída por todos aqueles que querem agir para preservar, encorajar e promover métodos de produção alirnentar sustentáveis, em harmonia com a natureza, a paisagem e a tradição.
    5. Wendell Berry e um ensaísta americano, autor de Iivros como Know That What You Eat You Are ("Saiba que o que Você Come, Você É) e Life is a Miracle ("A Vida é um Milagre").