domingo, 22 de junho de 2008

I Fórum de Mídia Livre: Mais dúvidas do que soluções

I Fórum de Mídia Livre: Mais dúvidas do que soluções

Evento reuniu representantes de diversos grupos para debater o livre fazer da mídia no Brasil e os monopólios da Comunicação

O 1º Fórum de Mídia Livre, que aconteceu nos dias 14 e 15 de junho no Rio de Janeiro, reuniu no Campus da UFRJ da Praia Vermelha, diversos jornalistas, representantes de grupos sociais e grupos de midialivristas interessados no debate sobre a mudança do setor de comunicação no Brasil.
Todos estiveram presentes para discutir perspectivas de democratização dos meios e novas formas de produção de conteúdos para a mídia, com diversidade de temas e linguagens mais criativas.

Na primeira parte do evento, após a chegada dos participantes, ocorreu a Mesa de Abertura, em um grande e pomposo salão da antiga Universidade do Brasil, criada na década de 20 do século passado. Na falta de cadeiras para todos os participantes, as poltronas de veludo da Reitoria foram ocupadas em uma atitude que quis demonstrar a coletivização dos espaços públicos para ocupá-los de maneira democrática. Ali se encontravam presentes os editores de grandes meios de comunicação da esquerda: a Revista Fórum, o portal Carta Maior e o Vermelho.org, do PC do B; principais interessados na verba livre do governo e poderosos concorrentes dos meios corporativos. POrém, na visão da "grande mídia", os midialivistras (pessoas que fazem mídia independente, de forma voluntária e autônoma) representam uma pequena parcela a nível de concorrência, afinal, estes, sem recursos, não podem ir muito longe.

A professora Ivana Bentes abriu sua fala enfatizando que os princípios do Fórum de Mídia Livre é dar visibilidade a um ato político de desfigurar os clássicos centros de mídia convencional, quando na verdade, o mais importante é a singularidade de muitos produzirem para muitos, é descentralizar os fazer de mídia. Ivana defende o fim da obrigatoriedade do diploma para não criminalizar os fazedores de comunicação. "Nós não queremos repetir as linguagens já existentes como o fazer TV, temos que romper com os manuais ultrapassados, porque as pessoas não querem mais aparecer na TV, querem ter um canal, querem fazer TV", afirmou. Para a professora, o 1º Fórum de Mídia Livre representa um movimento em prol do "fazer público", em favor da potência do fazer e da necessidade de expandir, massificar, de transformar essas ações em experiências nas escolas. "Se odiamos a mídia, sejamos a mídia" finaliza parafraseando a máxima do Centro de Mídia Independente.

Na vez de Gustavo Ginder, do coletivo Intervozes de Comunicação Social, se pronunciar, ele disse que a luta é pelo direito à comunicação, que é um direito humano, onde uma mesma espécie troca informações e cultura. "Isso é o que nos faz únicos perante outras espécies".
Para o ativista, ter acesso aos meios de comunicação numa sociedade de massa é mais que necessário. "O acesso à internet é restringido e não é democrático. A conexão é tornada um bem escasso para gerar lucro para as grandes corporações. Estamos falando da ausência do Estado para garantir o acesso" desabafa. E isso se dá nas várias facetas da comunicação; de acordo com Gustavo, para enfrentar o monopólio midiático da internet, do audiovisual, da radiodifusão, é necessário nos fortalecer como movimento social. "Não queremos o monopólio da Globo Filmes, queremos diversidade nas telas", disse.

Logo em seguida Renato Novai, editor da Revista Fórum e autor do livro Midiático Poder - o caso Venezuela e a guerrilha informativa, disse que a "grande mídia" pode até continuar existindo, mas ela jamais será grande na pluralidade e nas diferenças. Para Novai, a organização de um movimento em prol da democratização da mídia não deve impedir que sejamos diferentes, a comunicação deve ser feita em âmbitos regionais, na troca de conteúdo e não de cima para baixo como vem sendo feita. "Devemos ser um bando de marimbondos para atacar o rinoceronte da informação corporativa", disse ele fazendo alusão a uma frase do pensador argentino Eduardo Galleano.

A América Latina está despertando para essa questão dos monopólios midiáticos, exemplo pode ser visto na ocasião do golpe contra Chávez em 2002, na Venezuela, que pode ser comparado ao que sofreu Salvador Allende em 1973 no Chile, quando as forças armadas de Pinochet, aliadas aos jornais, assassinaram o presidente. No caso venezuelano, a ação popular, através de mídias alternativas, impediu que tal fim se repetisse.

Um aspecto interessante que foi ressaltado por Joaquim Palhares, da Agência Carta Maior, é que a propaganda "gratuita" eleitoral nunca foi gratuita. Trata-se de um espaço público televisivo que é ocupado por políticos em busca de votos e que é pago pelo povo; de acordo com o jornalista, são valores de uma tabela que nenhuma empresa privada paga, então o Estado faz o pagamento em forma de indenização. "Isso reflete a barbárie política da desinformação que atualmente vivemos" explicou.

A falta de transparência dos processos de concessão de rádio e TV faz com que a sociedade não tenha como fiscalizar o uso do bem público que pertence a todos os brasileiros. Ninguém é dono de TV ou de rádio no Brasil, entretanto, o que permanece é essa idéia no imaginário popular; e quando tratada a questão no Ministério das Comunicações usa-se a expressão "caixa-preta da radiodifusão". Todo o mistério impede que as pessoas compreendam que rádio e TV são serviços públicos prestados diretamente pelo Estado ou por meio de concessão.


Este, porém, não é um processo imutável. De acordo com o coletivo Intervozes de Comunicação Social no seu informativo de novembro de 2007, o primeiro passo é cumprir com as regras em vigor, além de buscar a alteração da legislação e a implantação de políticas democráticas. No evento que marcou a abertura do Fórum ficou clara a noção de que ali se reuniam pessoas que perderam a inocência midiática, chegando a uma consciência que chama para a ação e não há como permanecer da mesma maneira como agíamos e como víamos a mídia. Mas como mudar esse quadro? Essa foi a pergunta que muitos saíram do Fórum sem resposta.

Pensar a ação

Ainda no primeito dia ocorreram os grupos de trabalho que discutiriam as experiências dos militantes de partidos e grupos como ABRAÇO e FNDC, também de blogueiros, pontos de cultura, ativistas de rádios livres e grupos culturais independentes. Os temas variavam entre políticas públicas, colaboração, novas mídias, educação e outros.
O foco principal do grupo liderado por Altamiro Borges, do portal Vermelho, foi uma tentativa de mapear a área de construção da mídia livre como iniciativas libertárias já que vivemos o tempo de uma comunicação descentralizada e diversa, que emergiu através da Internet. Destaque para o Paulo Lima, da Revista Viração, que falou da necessidade de uma mídia feita com o jovem e a partir do jovem, dando-lhe voz e vez. Para ele, "o jovem precisa se acostumar a falar, a tomar decisões".

No grupo coordenado por Ivana Bentes a idéia foi traçar maneiras para uma formação de prática da mídia livre.
Exemplos do curso de audiovisual da Central Única das Favelas - CUFA Ver Favela, quando capacitou jovens da Cidade de Deus para fazer cinema. "Eles foram aprendendo com a prática levando a discussão do fazer mídia adiante, isso é dar a possibilidade de produzir mídia" disse Patrícia Braga, coordenadora do curso.

Neste mesmo grupo falou Rosane Svartman, da ONG Nós do Morro. "A nossa prioridade é a inserção no mercado de trabalho e não necessariamente a mudança desse mercado, queremos saber se o cara vai conseguir um emprego depois" disse.

Outro ponto importante foi levantado por Daniel Fonseca, da Rádio Universitária do Ceará. "Qual o impacto das mídias colaborativas? Será que vão fazer uma
mídia mais solidária ou uma sociedade atomizada? Para que queremos mídia livre? Será que queremos disputar o público da Rede Globo? Essa geração criada no cenário de novas mídias é cada vez mais individualista", afirmou. Porém, a questão que se forma é: como esses grupos que trabalham com a colaboração, a autonomia, a liberdade e a descentralização podem se articular como ator político em decisões macro-políticas? Se a questão é disputar espaço e patrocínio, ou seja, verbas livres do governo para exercer o fazer midiático, como entrar pra construir algo bom e inovador, se já começamos disputando?

Mas nem tudo é só política, comunicação e mídia, há que se ter um pouco de distração nesse turbilhão de idéias.
Para tanto caiu muito bem o show de Fred 04, vocalista da banda Mundo Livre S/A para encerrar o primeiro dia de trabalho.

Perspectivas?

Para o participante Pajéu Belo Monte*, "no segundo dia, a plenária final trouxe o desânimo pra aqueles que acreditam nas redes e na diversidade. A plenária durou 5 horas e demonstrou que a idéia era mesmo criar um grande movimento centralizado, com selos, manifestos, marchas à Brasília-DF, comitê gestor e plenárias burocráticas. Desânimo porque em certo momento havia esperança de que aquele evento pudesse ser uma interface entre iniciativas diversas aonde uma fortalecesse a outra".

A opinião acima parece que foi unânime. Diversos participantes, entre eles estudantes e militantes de movimentos sociais, reclamaram das divergências entre os interesses finais do Fórum de Mídia Livre. O tempo para fechamento de um documento único e consensual se estendeu, fazendo com que os horários previstos para o início das oficinas atrasassem.
Na oficina que me coube, apresentei uma pequena mostra de filmes do FELCO - Festival Latino Americano da Classe Obrera
A platéia, ainda que pequena, contribuiu ao final de cada sessão com um debate crítico e inteligente acerca da democratização, da espetacular corrida ao poder através da mídia e finalmente sobre a globalização e seus reflexos nocivos na América Latina. Depois de dois dias debatendo os temas sobre os monopólios da comunicação e do fazer comunicativo livre, fico pensando no que meu companheiro Pajéu disse: se o melhor caminho é mesmo abandonarmos a macro-política e nos voltarmos somente para a produção e colaboração em rede, acreditando na sua força; ou inserirmo-nos nas disputas e burocracias desse meio. Se a alternativa é essa última, como fazer isso sem nos tornar mais do mesmo?
de cinema e vídeo.

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